domingo, 1 de dezembro de 2013

"Sobre Ninguém na Sua"


Ao longo dos anos você percorre por uma série de situações parecidas ou ao menos próximas de pouca variedade ou brilho. Ao longo dos tempos o tempo é mais rápido, um segundo depois ou no dia seguinte. As maneiras são as mesmas, os deslumbres são os mesmos; muda o protagonista, um perece e entra outro mais perecível. Alguns nos deixam na mão peculiarmente, surpreendendo a quem não se precaveu. Não é fácil perceber detalhes, não é divertido; achar sabor no que se vê, doce ou amargo ou qualquer bobagem. Texturas que se repetem, outras não mais. Eventos que estão por vir. Basicamente, é notável o frio que dá na barriga.
Lindas cores vibrantes que anima a população vestida de roupa leve e a previsão do tempo que não prospecta chover na garotinha voltando da escola de mãos dadas com a avó e em todo o resto da cidade. Nuvens branquinhas, garis varrendo a rua e amarelinhas desenhadas em tijolo no asfalto, do céu ao inferno; é assim que se vê um dia raro no ABC Paulista em que um menino no meio da rua empinando pipa encosta a linha na rede elétrica e morre assustando todo mundo que viu e não viu.
O choro da vizinha e o enigmático desespero da mãe, o pai a caminho, o amigo traumatizado e ele longe e seu ex-corpo de oito anos duro no chão. Resgate e imprensa cobrindo o defunto de todas as maneiras. Um jeito de surrealismo num dia lúdico de férias.
No aconchego a quilômetros de distância da cena, Santa Cecília, capital paulista. Do alto do segundo andar Cláudio vê o menino Cauê no jornal e sente uma profunda tristeza quando assiste a mãe do menino contando ao repórter os pormenores do que aconteceu. Cláudio nota a semelhança de seu próprio rosto quando criança, quando desobedecia a ordem de brincar na calçada e pulava alucinado por cima das lixeiras vazias e subia em árvores. Essas modas estão acabando aos poucos. O sentimento de comoção se dissolve quando ele escuta a notícia seguinte.
A alheia ligação entre esses dois cidadãos cessa quando Cláudio sai da frente da televisão e, como de costume, leva seu cão salsichinha para passear de coleira.
O cão caminha pomposamente ao lado do seu dono parecendo ter a certeza de que aquilo viria a ser a melhor parte do dia. Param na tenda de um chinês que vende pastel. O bicho come os farelos de massa e pedaços de tomates e cebolas do molho vinagrete grudados no chão enquanto Cláudio pede um pastel de carne. O pastel está pronto. Cláudio come usando uma mão enquanto a outra se sacode com a coleira; o cachorro se agita por conta de um pombo que também petisca sujeira no asfalto.
Cláudio sai da barraca de pastel. Duas mulheres passam por ele citando o menino eletrocutado: “Miiisericórdia... mulher do céu... que coisa foi aquela?”, dentre outros dizeres. Logo depois ele para para observa as manchetes na banca de jornal. O menino eletrocutado; o menino eletrocutado na boca do povo; o Menino Cauê nos periódicos, em fotografias, em texto, eletrocutado. O alarde é intenso, a ênfase incomoda e Cláudio pensa em dizer foda-se gratuitamente para o próximo que passar a seu lado comentando o incidente, mas prefere substituir o aborrecimento dizendo nada, como deve permanecer se comportando uma pessoa adequada.
As pessoas saturam o direito de se mostrarem emocionadas por alguma coisa e Cláudio não é capaz aceitar isso. Certamente estão de acordo em levar a sensação de choque junto com o menino até chegarem em casa e procurarem saber de mais alguma coisa pela qual viver. Cláudio fica chocado por ninguém demonstrar conhecimento de nada digno de mais importância, nada mais funesto ou de qualquer outra qualidade. Porém, para ele nada disso vale e vai até a casa lotérica para comprar uma raspadinha.
Ele chega lá. Um real: é o quanto custa a raspadinha. Raspa com a chave e ganha um real... naturalmente, mais uma raspadinha. Raspa com a chave, desta vez com um sentimento maior de fidúcia, e ganha cinquenta reais. Em toda sua trajetória lotérica nunca ganhara nada, por isso não consegue conceber que a sorte batera em sua porta duas vezes no mesmo dia. Mostrou a raspadinha premiada ao homem que operava o caixa, o qual estava assistindo a televisão pendurada no alto da parede. Deu a Cláudio o prêmio em duas notas de vinte e duas de cinco e balbuciou por cortesia protocolar um parabéns murcho quando ao mesmo tempo retomou o olhar para o noticiário com o menino eletrocutado protagonizando toda a programação. Taquicardia e palpitações e limite: Cláudio estoura retribuindo com xingamentos, grosserias, como se estivesse falando com toda a população local consolidada por inteira naquele pobre infeliz sem dolo de qualquer frustração alheia; afrouxa-se com a raiva de Cláudio e esboça um queixo trêmulo magoado. Até chega a dizer algo repreensivo, mas de tão frágil Cláudio não escuta nada. A mulher que estava na fila segurando um maço de contas a pagar expele um petulante e sussurrante “Ignorante!” e completa sua maldição com “Cretino!”. Absolvido de qualquer humanidade, o cão salsicha apenas põe a língua para fora sem maiores pretensões de ser nada além daquilo.
Cláudio vira as costas e respira fundo maldizendo seu caráter momentâneo, nunca havia falado com alguém assim na rua. Tem a certeza de que machucou alguém. Por outro lado sente-se cegamente realizado e discorre sobre quantas vezes havia sido a vez dele de ser a vítima de todo mundo.

“Basicamente, é notável o frio que dá na barriga”, conclui sozinho sem a ajuda de ninguém. 

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