domingo, 6 de outubro de 2013

"Sobre Transações"


Conjunto cinza de moletom e chinelos. No meio do caminho ele vasculha o bolso de trás e nada tateia: esqueceu de trazer dinheiro, sonolento por demais. Volta para casa com uma rapidez inoportuna e enche a mão de um punhado de trocados que achou no aparador. É o suficiente. O matiz do dia é amarelado e feliz. De acordo com seu entusiasmo, passar por outubro sugere ansiedade. E neste mês, especificamente neste ano, a aflição é o dobro da habitual. Sendo assim, até seus trejeitos expõem a irrequieta sensação para si e para todos. É quase folga, detalhe que o faz sentir-se ingenuamente único e quase completo bem no íntimo. Assobia uma melodia do Neil Young buscando refrescar seu espírito, pois sabe que é dia 31 – terça-feira com cara de sexta, véspera da véspera do feriado de finados –, mas ainda precisa trabalhar. Tenta também com algum esforço recapitular o que sonhou, mas antes vem à mente a imagem do seu calendariozinho que fica na cabeceira da cama e que nesta manhã continha a seguinte frase: FORTUNA E PROSPERIDADE EXISTEM PARA QUEM ABRANGE, mas todo aquele bolo de moedas balançando no bolso rente à bunda dava cinco reais e setenta centavos, exatamente. Ironia. O outro lado da rua lhe chama atenção, pois seu ônibus 152 passa freando e emitindo uma algazarra mista de pausa e tralha metálica. Agora sabe que tem algo em torno de cinquenta minutos para fazer tudo o que tem que fazer e pegar o próximo a tempo e menos cheio. Mentalizando o assento que poderá estar vazio o legítimo bom humor enfim dá as caras e assim, cheio de perspectiva, entra na padaria e sente aquele cheiro de pão sendo assado. Apetite que lhe cutuca a barriga, a traquinagem fisiológica. Pede trezentos gramas de pão de queijo e um leite tipo B; quer também um café instantâneo, mas na hora de passar no caixa o dinheiro não dá e reclama com um resmungo voltado para si por não ter trazido a carteira. Põe o café de volta na prateleira, paga à mocinha vaidosa que masca chiclete. Dá para sentir o hálito de melancia; tudo é muito doce, nela, que cantarola uma música sertaneja que não faz par com o Only Love Can Break Your Heart dele. A mocinha repara no moletom, franze o cenho, desaprova a roupa com alguma palavra secreta e guarda entre os dentes a opinião e no caixa o dinheiro, o montante que contém justamente aquela moeda de um real. Valores miúdos, contatos cegos. Com o nariz permeado de pão semi assado e melancia, ele vai embora ainda bem humorado sem ter rememorado o sonho. Prorroga este pequeno prazer guardando-o para o trajeto do trabalho. Rapidamente, a mocinha dá de troco o prodigioso tesouro para um senhor que lhe pede um maço de cigarros light logo em seguida. Ele quer parar, mas não maquinou qualquer planejamento ou estratégia, portanto fumar seu primeiro cigarro do dia ainda não é doloroso. Naquele instante o que realmente o machuca é caminhar com aquele joelho incorreto alfinetando o apreço pelos ossos. Às 16h ele tem uma consulta com o ortopedista que analisará seu caso de osteoporose. Dependendo do quadro, ganhará quinze ou vinte dias de perna engessada: uma folga dentro da folga por já estar aposentado. Passa pela banca de jornal e observa as manchetes esportivas e nutre uma esperança nostálgica que consiste em seu alviverde revelar um novo Leivinha à nova geração. Mas sabe que o tempo é de marasmo, então volta ao joelho latejante e à sua mulher, que o espera pra tomar o café, que acabara de ser coado e adoçado. “Esqueci de pedir pra comprar um pote de margarina, tá acabando”, diz a esposa. Mas ele já colocou os pães na torradeira, “Pega o requeijão, não dá pra ficar saindo toda hora com esse negócio assim”, ele aponta para o joelho e ela bufa, mas consente segundos depois e arqueia as sobrancelhas. Parceira. Tomam o café silenciosamente enquanto a televisão da cozinha passa um acidente envolvendo um motociclista e um furgão amarelo que parece ser dos Correios. O cara da moto morreu. “Coitado”, ela diz, somente. Ele pragueja sobre o fato enquanto ela percebe o sol que faz: lavar a roupa. Por coincidência ou truque do inconsciente acostumado com a rotina, o caminhão da água de lavadeira grita gradualmente água lavadeira. Ele está para cruzar a esquina. A esposa traga com pressa o resto do café com leite. “Me arruma um dinheiro pra eu comprar umas coisas com o homem”. Cumprimenta o rapaz que está na caçamba rodeado de mangueiras e garrafas pet multicoloridas, depois pede um litro de amaciante com fragrância de jasmim e dois reais de sabão de coco, o que dá seis barras. O cheiro dos produtos, as cores químicas e o megafone imperativo trazem à tona uma indizível sensação remota e macia, para ela. Para ele, que ainda está na cozinha segurando a xícara com dois dedos envolvendo a alça e imaginando a imprudência do motociclista, foi o desapego de mais um acanhado trocado discretamente vivo. Um pequeno e calado grupo de donas de casa vai se amontoando no caminhão. “Me dá isso, me dá aquilo”. Tanto brigado, brigada, obrigado você. O ônibus 152 menos vazio ronqueja distante, o sertanejo de melancia se cala como se fosse nada. Aquele um real se dispersa e para em alguma mão feminina. Houve uma prolixa confabulação, um sutil contato. Ninguém notou.

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