quinta-feira, 10 de outubro de 2013

"Sobre o Mau Uso das Pessoas"

O gosto da solidão não é oportuno. Talvez o tédio estivesse comendo tudo o que foi erguido com tanto cuidado nos últimos tempos. Tem a impressão de que vinha se arrastando para essa situação, peculiar efeito que o envolve.
Incômodo como um estomago cheio de comida, Cristian assim se sente, mas não alcança essa comparação. A preguiça incrustada no corpo é bastante e a imaginação dorme em algum lugar.
Sala sob 60 watts de luz incandescente, lâmpada insuficiente bastante perversa quando não se está disposto a curti-la. Por fim o amarelo domina a situação decisivamente como se fosse alguma revelação mais séria além de um vazio bobo. Não há alvos concretos.
Não quer ler, não quer fazer palavras cruzadas, não quer escutar música, não quer dormir. Sem telefone ou internet. A fuga pode estar na televisão, mas ela não fornece nada mais curioso do que os 60 watts por cima da cabeça. Os mantimentos da geladeira são margarina, leite, cenoura, cebola e café em pó. Café com leite o faria mais abarrotado, então também descarta as possibilidades da cozinha.
Talvez haja a vontade de fazer tanta coisa que não saiba por onde começar, questão de perspectiva. Em longo prazo, pode ir ao interior ver seu pai, pode ir à praia, cuidar de casa, comprar suas bobagens... Tudo o que gosta e o que precisa. Mas neste episódio em específico há nele algo a mais, uma tonalidade de irracionalidade, uma sensação biliosa que quer arrastá-lo para a tensão do desconhecido.
 Cheira à burocracia, baldeação e ABC Paulista. 25 anos, Cristian Pereira Cruz: 21h15 de sexta-feira; o coração bate forte e ele deve tomar uma atitude.
A arritmia que quase assusta o tira forçosamente do sofá. Vai ao banheiro tomar banho. Nu, observa-se no espelho com zelo e por algum motivo idealiza alguém desconhecido ao lado dele no espaço vazio do reflexo. Sente-se bonito. Entra no chuveiro e prossegue com a ideia de preencher o buraco vago que viu. Lava o corpo como se alguém fosse cheirá-lo ou tocá-lo, como se almejasse uma ocasião especial, como se estivesse vivo para todo o resto fora de casa.  Sovacos, pescoço e barriga devidamente ensaboados; xampu nos cabelos; alguém a mais no banho, alguém sem rosto e Cristian bonito para si. Encharca o tapetinho, molha todo o banheiro, escova os dentes, faz a barba com esmero, deixa um bigode para mudar, passa desodorante, põe a cueca, veste uma bela camisa e se perfuma estrategicamente; atrás das orelhas, pomo de adão e pulsos.
Separa o pente, o gel e eis um estalo mental que determina o que irá fazer. Pega uma moeda do bolso da calça caída no chão: coroa, eu vou; cara, fico. Coroa. Ele irá ao forró. 
Não é seu tipo de ambiente, casa de forró. Aliás, nunca pensou em ir a uma, e se algum conhecido o encontrar no caminho, definitivamente sentirá um profundo constrangimento. O que pensarão dele seus amigos engolidos pelas suas convenientes arrogâncias de quem acha que sabe do melhor?
Pega um ônibus que vai em direção ao centro. Desce um pouco antes.
Há uma pequena fila na entrada. Um pequeno aglomerado de carrinhos de lanches e vendedores de amendoim o chama atenção, mas quer entrar logo para acabar com a curiosidade. Uma faixa verde limão pendurada entre dois postes anuncia em letras rosa choque para Deus dará:
16/11 - SEXTA DO ESPETINHO: KAFTA E LINGUIÇA À VONTADE
BANDA KERO MAIS
HOMEM R$ 10
MULHER R$ 5 (GRÁTIS ATÉ MEIA-NOITE)
Está nervoso, não sabe ao certo o que está fazendo ali. Sente-se como um imbecil e as pessoas que ali estão parecem notar o que ele é. Para ele isso está bem claro. Umas mulheres de trinta e poucos olham para ele, talvez contemplando sua vulnerabilidade com algum sentimento incógnito. Quem sabe. O nervosismo aumenta, no fundo está apavorado. Paga os dez reais a uma senhora numa cabine construída de Eucatex. Ganha uma comanda de consumo.
Como na quinta-série, como quando alguém acaba de entrar numa sala de aula cheia de pessoas ameaçadoramente novas, ele passa pelo segurança, sobe uma escada e se depara com um salão tocando um som que lhe é familiar, mas não consegue se lembrar do nome da música. É um forró alucinado que está sendo distorcido pelos alto falantes, e é evidente que um teclado emula o acordeom e a bateria, parece videokê, mas ninguém dá a mínima para esse detalhe. Faz força para entrar no clima do ritmo, mas o corpo continua rijo. A banda ainda não subiu ao palco. Todo mundo está com um espetinho na mão. É um povo agitado que realmente transmite alegria. Exaustor, pelo amor de Deus. A fumaça da churrasqueira instalada em um dos cantos do salão invade a pista como se fosse efeito de uma maquina de gelo seco; há tanta gente querendo mais espetinho que ele nem tenta pegar o seu. Há um mosaico asqueroso com vários pedaços de carne e varetinhas distribuídos no chão. Cristian se vê exposto, não sabe para onde correr, procura se ocupar com alguma coisa para não continuar parecendo um trouxa exclusivo. Pede uma cerveja para um barman de olhar intrépido e cara de boliviano que parece estar à espera de alguma bobagem pronta para eclodir. Cristian vasculha a direita e a esquerda tentando achar o motivo daquela feição, depois recua e observa se há alguma mulher que lhe agrada observar. Todo mundo pede ou catuaba com energético ou vodca com energético ou uísque com energético. O que há de tão especial nisso?
Uma estranha mistura de sentimentos abusa de Cristian, parece que a satisfação não chega da mesma forma como chega aos demais; experimenta uma forte palpitação no peito que vem a ele como uma monstruosa amostra de timidez. Tudo escurece e apenas um canhão de luz negra enfeita o ambiente; quem está de branco ou algo parecido se destaca gritantemente. O povo aprova a quase penumbra com um grito uníssono e dançam, bebem ainda mais e comem menos espetinhos. Uma dúzia de calças brancas feminicoladas o excita, aqueles quadris sugestivamente se movendo para lá e para cá, sinuosamente: dá para ver as calcinhas. Ele experimenta uma ereção. Os homens estão praticamente de uniforme, todos vestidos iguais: polo com números aleatórios e brasões, e jeans cheios de remendos e zíperes estratégicos.
Mais de meia hora se passa e ele se pergunta por que não consegue ficar tranquilo. Até tenta alguns movimentos, mas prefere sentar em um banco perto dos banheiros bebendo sua cerveja.
Sem se dar conta, Cristian boceja e perde o interesse pelas bundas de Lycra. Na busca por uma posição confortável, por fim enterra as duas mãos nas laterais da cabeça e apoia os cotovelos no joelho.
Alguém sai do banheiro feminino. Ela pergunta quase gritando:
- Tá bem?
- Por quê?
- Ah, sei lá.
- Pareço tão derrotado assim? – retruca mais alto ainda, meio assustado, mas contente por alguém ter feito aquela pergunta.
- Não sei, não consigo ver o seu rosto direto nesse escuro.
- Também não vejo o seu.
- É que você tá sentado aí todo torto. Bebeu demais, foi?
- Ah, só não quero dançar.
- É, não tem cara de que gosta de forró.
- Mas você disse que não tá conseguindo me enxergar.
- Mas se gostasse faria um esforço pra dançar, pelo menos.
- Verdade.
- Estava indo fumar, mas não queria sair sozinha.
Ele foi, mesmo não entendendo aquele medo de sair sozinha. Por fim a viu. Razoável. Morena loira quase magrela bonitinha. Parecia ser uns cinco anos mais velha que ele. Dava para descobrir um ou outro encanto ali, pensou. O salto plataforma a fazia andar torto e vulgar. Carros e chiado e cafonice e pele e postes e risadas e pipoca e sotaque não eram mais tão audaciosos. Por um breve momento Cristian se sentiu dono de uma sorte tão cega que até esqueceu de que ela era mais ou menos, de que estava exposto na rua fazendo parte de uma cena que arriscava gratuitamente a integridade de sua reputação. À esquerda de Cristian a moça fumava calada, olhava uma janela acesa no alto do prédio em frente; ela parecia não se importar com o silêncio dele.
Cristian tentava puxar do repertório algum assunto que coubesse naquele tempo, mas no lugar disso saiu uma ordem:
- Vamos embora.
- Tem carro?
- Ônibus.
- Hum.
Subiram, pagaram e saíram quando ao mesmo tempo um furgão cor violeta estacionou, era a banda. Andaram por uns quinhentos, seiscentos metros até encontrarem um boteco.
Ele se senta e ela diz que vai lavar as mãos. Cristian pede uma caipirinha, e ela demora tanto que ele bebe tudo e depois chupa os gelos pensando em uma estratégia. Há um trio de velhos jogando buraco três mesas adiante. Enfim ela volta com um sorrisinho que seria delicioso se não estivesse tão vermelha; retocou a maquiagem e exagerou no blush, parece que foi esbofeteada no banheiro. Esperava um olhar de aprovação dele e ganhou.  Os velhos e o menino que prepara um x-egg na chapa olham para a bunda dela; lordose inumana que excita somente os iludidos. O odor-linguiça defumado dos dois e o perfume almiscarado de Maria – esse é o nome – invadiram o nariz de Cristian e por algum misterioso motivo aquela combinação mais a cor alaranjada das paredes e a expectativa de uma continuação aleatória o fizeram sentir-se mais disposto.
Profissão, idade etc., conversa chocha; mais caipirinha, mais conversa, mais caipirinha. Nada prosseguia por muito tempo, Maria parecia meio desinteressada por qualquer coisa vinda dele, exceto a caipirinha. A sorte cega vai cessando. Chega a desinibição e ele diz:
- O que você tava fazendo lá?
- Uma menina do meu trabalho tá fazendo aniversário hoje – era mentira –, só passei pra dar um oi. Mas eu é que te pergunto.
- Que pergunta o quê?
- Foi lá por quê?
- Curiosidade, só.
- Assim, do nada?
Ele tira aquela moeda de um real do bolso e põe na mesa, essa é a sua resposta. Ela olha para a cara dele com uma expressão confusa que lhe significou o que se passa com esse coitado.
- E?
- Tirei cara ou coroa. Deu coroa, daí eu fui.
Dito isso, feito isso, Maria sentiu como se tivesse escutado uma confissão difícil, como se uma rodela de franqueza tivesse sido depositada naquela mesa grudenta. Sentiu mas não entendeu as coisas dessa forma, não conseguia classificar nada com exatidão, estava bêbada e determinada a prosseguir embriagada. No esforço conseguiu julgar que aquilo que transcorria era a melhor coisa que poderia se esperar daquela circunstância. Com isso deveria ter surgido todo aquele sentimentalismo que se experimenta nas pequenas coisas ignoradas, mas na hora h continuar não sabendo com quem estava lidando pareceu ser o detalhe mais certo a se apegar... Estimulante, talvez. O que saiu da boca dela não condisse com a sensibilidade que Cristian quis compartilhar.
- Mas por que deixa a sorte decidir as coisas por você?
- Quis tentar alguma coisa diferente, nunca fiz isso.
- Mesmo sabendo que não ia gostar.
- Não disse que não gostei.
- Eu não faria isso.
- O tédio faz a gente se surpreender. E ainda não sei se gostei ou não.
- Ah não?
- Não.
- Quando vai descobrir?
- Quando me disser por que me chamou.
Ovo estalando na chapa, televisão e pigarreadas. A princípio Maria não respondeu. Ficou esboçando qualquer coisa que desse a chance de ampliar as perspectivas, dele e dela. Cristian era difícil e cansava sem querer.  
Estava tarde, sem ônibus e Maria mirava aquela moeda com um olhar esbugalhado que nada dizia. Talvez tanta bebida, talvez... ovo estalando na chapa, televisão e pigarreadas... Saltou por cima do pudor indo para o finalmente. Ela não se importava, desmanchou o marasmo com:
- Tô a fim de foder.
As pálpebras de Cristian ficaram trêmulas e seu lábio empalideceu de susto. Repetiu interrogativamente aquela palavra como quem não acreditou no que ouviu e fez um gesto afirmativo com a cabeça levantando com pressa.
- O tédio faz a gente se surpreender, né? – disse Maria com um olhar embriagado de deboche e imitando a voz de Cristian.
Ele, com o orgulho levemente ferido, engoliu seco e pagou as bebidas.
Sexo lacônico no hotel da esquina. Dez a hora. Roupas, mofo, bojo, abajur, mãos, línguas, pelos descoloridos, reação, chupões, gemidos sequenciais e onomatopeias cutâneas. Vinte minutos e gozo obtuso. Não conversaram depois, nem durante. Sorriem suados, ofegam, depois passa. 
“O que se ganha ao foder?”.
Seis e pouco. Maria dorme com a boca no travesseiro. Ele pensa em quem já se deitou ali e se levanta enojado. Cristian observa consternado o espaço vago no espelho do quarto, depois lava o rosto e vai embora com aquela dúvida sobre foder. Como se estivesse pagando uma puta e torcendo para que ela assim notasse, deixou a moeda na cabeceira junto com a chave do quarto. Pagou a mais na recepção para que ela pudesse dormir um pouco mais.
São Bernardo do Campo: domingo de feira e Cristian Pereira Cruz de Sábado. E Maria prefere acreditar que está apenas curtindo a vida.   


   

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