segunda-feira, 7 de outubro de 2013

"Sobre o Baixo Valor Perdido no Chão"

A céu aberto na Avenida Paulista.
O tom seco de saltos e sapatos arrastando poeira para lá e para cá sem culpas em relação a isso. São objetos, somente. Percussão estrondosa ao pé do ouvido do chão que esconde o metrô perfurando a pressa logo abaixo. Nada disso pode significar qualquer coisa para quem caminha ou é capaz de caminhar; nada disso pode ser considerado interessante para quem respira o ar da tarde próxima ao semáforo próximo ao ponto de táxi próximo da noite próxima das 18 horas. Buzinas de motociclistas que costura carros, seus oponentes. Um inferno para trafegar e estacionar, e não importa a hora, todo mundo sabe disso, não é preciso estar lá. Tudo irrelevante para quando não se dorme e o sono é supérfluo... para ela, a moeda: para ela é assim.
Calor mentiroso acobertado por uma nuvem sem cor, apenas; um invólucro enorme e magoado por uma série de pretextos poluentes e climáticos do coração econômico do país. Será que isso um dia muda? A moeda, pra ela é assim: arranhões sem dor, arrastões inocentes e passos alheios espremendo tudo debaixo dos pés. O metal toca o asfalto, toca a sujeira, sem perder seu real valor. Como quando alguém mata formigas ao caminhar, alguém as pisoteia sem tomar conhecimento do que acabou de fazer. Para a moeda é assim, quase sempre.
Fácil e acessível como um pequeno furto caído próximo à guia que separa a tranquilidade do atropelamento na via expressa sem ninguém notar a tensão entre as duas possibilidades. A céu aberto na Avenida Paulista e nada faz sentido a não ser quando por ali passa Aquele ou Aquela, impregnados de características típicas. As roupas bacanas do sujeito bacaninha que aparenta ter uma vida completa. Os óculos gigantes da garota quase feia com um jeito nojento e empolado de andar mascarada e segura de si. Os cães de raça, os vira-latas. Pessoas simples, colegas do cotidiano... bonitos, feios e simpaticamente ordinários; aí sim está resguardado o melhor – e para eles o melhor está resguardado em algum lugar não tão longe de lá.
Procura-se a meada do nexo enquanto simultaneamente, sem assumir, pessoas dedicadas e raras procuram sorrisos naturais desvanecendo entre coisas opostas que se vê por aí. Não se sabe como se dá abertura a isso, mas é o que acontece nesta tarde enquanto para alguma coisa qualquer é necessário permanentemente valer cem centavos de real: um olho monetário no chão podendo fazer a alegria de alguém. Pedestres, caminhos sinuosos e retilíneos de um mar de gente que carrega o corpo para se desgastar por obrigação nos quatro cantos da cidade. Não se ouve nomes, não se ouve reclamações. Ninguém é dono do que diz ter. Ao menos na calçada, um infalível valor pendente espera ser gasto como sempre.
São Paulo da garoa faz jus ao apelido garoando sem grande vaidade, acostumada. Chuva fina sobre várias porcarias e tesouros no chão. Só resta maldizer o molhado que vem de cima desfazendo penteados e determinando o fim da tarde.
A céu aberto na Avenida Paulista e alguém que caminha como quase todo o fluxo: alguém com um nome e munido de guarda-chuva e indiferença sorri por dentro ao contemplar a própria sorte e extrai do chão a solução do conforto e completa a passagem do ônibus que agora deve pegar para fugir da chuva que começa a arquitetar uma trama mais séria.
Amanhã a catástrofe virá a ser comentário, as calamitosas negligências que dão as caras ano a ano, como se fosse Natal, Páscoa ou Carnaval: a enchente; os desmoronamentos, longe da Avenida Paulista.
E visto que é trivial correr aleatoriamente para qualquer canto a favor da própria vida, visto que vez ou outra não há motivos compassivos que nos permitam olhar para o chão ou para o céu com a intenção principal de observar por onde se passa dia a dia, é possível garantir que há gente em pé com olhar horizontal que anula a tradicional paisagem e suas probabilidades abertas...
A céu aberto na Avenida Paulista. Seja lá o que for, vale ser inserido nesse amontoado de definições. E nenhum drama maior domina quaisquer ações civis enquanto tudo for invisível.

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