quinta-feira, 17 de outubro de 2013

"Sobre Alimentar os Sentidos"



Abre a janela sem o propósito de achar o que nunca achara em outra paisagem, e está tão ensolarado que pouco importa; a grama se estende até a descida do morro. Só, sente o aroma de madeira e terra macia que tanto o faz feliz quando tudo se mistura perfeitamente no ar. Respira fundo e agradece por pensamento, pela afinidade bucólica, e volta a si ao olhar para os pés descalços que tocam o chão rústico da cabana: precisa cortar as unhas, mesmo. Vai à cozinha preparar um café e ligeiramente se comove pelo desalento que não existe naquele dia. Sente-se emocionado por nada em particular, talvez pela sorte fácil que desliza aos poucos e atravessa o coador indo direto ao bule, fumegando. Mira um porta-retrato solitário e sorri, pois já se foi o tempo de viver o tema ali representado: três irmãos fantasiados de mágicos. Não se culpa por ser aquele mesmo aluno indisciplinado, fez seu caminho longe, longe da professorinha. Seus olhos não escondem nada. Há quanto tempo não via seus amigos? Havia tempo? Existiam? Sabe se lá o que se passa com Frederico, com Rosa, com Alberto ou outro antigo episódio marcado por esses parceiros. Tem alguma pressa, portanto rasga o pão com as mãos e esquece-se da faca que usa para aguçar a espera de um proveito qualquer. Assim age Álamo em 22 de outubro, pois bem sabe que as chuvas começarão em poucos dias e precisará de mais temas e inspiração para acompanhá-las no dueto que tocou com maestria em sua cabeça neste veraneio. Fez sua cabeça com bastante calma até encontrá-la sã. Calça as sandálias para ter com a quaresmeira estufada de lindas folhas e flores uma prosa visual e plena de prosperidade; desce o morro com cinquenta passos tenros e enxerga algo que nos diz respeito, volta correndo em saltos dramáticos contar ao diário o que viu. Muda a caligrafia propositalmente, como se mudasse de voz ou de cor da pele, escreve um bilhete breve, rasga a folha do caderninho e lança para a varanda; o vento a leva morro abaixo e segundos depois o céu distante degrada de azul para verde como num daltonismo controlado. Seus pulsos enrijecem por uma boa gama de motivos emotivos e regozijos desconhecidos. Prefere não entender quando o vento sopra até sua escrivaninha improvisada um novo bilhete com os dizeres: “Estou esperando do outro lado”. Sente o semblante faceiro caindo pouco a pouco, dando lugar às jovens rugas que vão surgindo uma a uma, andando pelo rosto, pelos braços e fazendo cócegas estranhas quando cai um espelho ao lado da cama; não pode se assistir indo embora, encolhendo-se... sequer faz questão de notar quando se dissolve, como se isso fosse realmente possível a todo momento. Suporta e vive, de novo, pela segunda vez. Tudo ao mesmo tempo. E assim, sem tomar consciência, abanca mais uma chance de ser aquele que tanto almejava e xhxhxhxhxhhxhxssssssssssssssssssttts! Eis que chora por nascer de novo por meio de outra mãe. “Menino!”, diz uma voz feminina. Ele nada percebe, não mais. É quase outro, aquele que está no colo de uma desconhecida; a desconhecida o faz se sentir risonho, mas ele não sabe ao certo o que isso significa, não houve tempo para isso. Álamo perde o nome e todo o resto de antes para um corpo recém-nascido.
Créditos, a luz acende.
Greta sai do cinema confusa e com uma leve enxaqueca, mas feliz por ter pago apenas uma moedinha por aquilo. Por outro lado, já faz um bom tempo que ela pensa em Álamo esporadicamente e com a secreta vontade de tomar seu lugar, como se isso fosse possível. E é assim que todo bom filme deve ser.


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