segunda-feira, 7 de outubro de 2013

"Sobre Abalos"




Ela pede com gestos e com o rosto reminiscente para ele perder a cabeça de uma vez sem pensar, mas aí ele se trai e põe as mãos nela obedecendo aos sinais: agora ele é um cafajeste. Quadril, cintura. A bunda dela, por meio do tato, é um delicioso amontoado irremediavelmente macio de vontades que lhe cutucaram o pensamento por um par de meses ou mais. O beijo dele é aflito e aquela barba irrita a pele do jeito que ela imaginava e queria que fosse. 
Morre a curiosidade como morre acima deles a luz do poste que pisca uma sequência perturbadora como pisca a informação do outdoor que arranha parte da cena como arranha o chão os tilintantes cacos de vidro que ladeira abaixo deslizam inevitavelmente como desliza o cheiro da dama-da-noite da esquina que ano a ano cresce como cresce a mesma indiscrição que dá início a toda infidelidade. Aglutinação de enfeites estranhos que tornaram aquele maldito momento excepcional para os dois, Carla e Thiago. Morre tudo isso em torno de um beijo lento, sem promessas.
Marido de Carla conta as despesas do mês na mesa da cozinha. Esposa de Thiago pinta as unhas de violeta enquanto assiste novela.
Os fatos prosseguem remoendo nas cabeças antes do conhecimento de todos. Thiago volta para casa com o cheiro de Carla esparramado na roupa e no corpo. Carla faz planos em segredo como fazia bem antes do beijo, o qual ainda é sentindo naquelas duas bocas. Gosto delicado de saliva com ruptura.
Thiago põe os pés dentro de casa saboreando um natural sentimento de culpa. Com medo de que sua mulher descubra, ele apenas diz de longe um olá meu amor e corre para o banheiro dizendo que está apertado. Toma banho e lava tudo cuidadosamente para não restar vestígios. Joga a roupa suja no fundo do cesto para se misturar com o suor das outras.
Quando volta à sala, ela põe a mesa e eles jantam uma macarronada em meio a perguntas do cotidiano. Tudo é cenográfico, morno e protegido. Por dentro dos dois dói lentamente o tédio que não sabem como liquidar. Ela nem quer mais aquilo, e é difícil por um ponto final quando não se tem a coragem necessária. Mais fácil esperar pela catástrofe. Assistem ao jornal, um seriado e depois vão dormir sem ter assunto para depois.
Carla chega e vê seu marido sentado calculando o orçamento. O beijo ainda repercute no pensamento e ela precisa continuar aquilo seja lá como for. Puxa o marido, beija o pescoço dele, põe a língua em sua boca e acendem. Com efeito, transam rapidamente sobre a mesa cheia de recibos e cartas abertas.
O resto da noite prossegue quase usual, com uma leve alteração quando, aproveitando uma disposição sem propósito, eles repetem o sexo. Em ambas as vezes ela imagina Thiago, enquanto o marido faz tudo por fazer, já bastante enojado do sexo conjugal. Deve ter os seus motivos.
Carla faz o dia parecer mais agradável naquela repartição. Está mais bonita, atraindo olhares e elogios de colegas. Thiago observa tudo com um ar de tensão, como se estivesse com medo de perder o emprego. Ele apenas faz seu trabalho quieto, tentando evitar o encontro com Carla. No fundo ele sabe que a condição está se tornando incontrolável e, uma hora ou outra, alguma merda bem feita deverá explodir sem remédio.
Quando Thiago sai para o almoço, Carla corre para alcançá-lo. Alcança. Almoçam juntos num self-service, só os dois. Ele não diz nada, ela fica falando sobre o dia anterior, sobre o que acha, sugestionando. Parece estar desesperada para resolver logo a questão. Não sei, não sei, sei não, repete Thiago ao longo do almoço. A paciência vai acabando aos poucos em forma de provocação, Carla quer resolver a vida como se fosse bastante fácil decidir a que ponto se chega, a que ponto Thiago abrange memórias do casamento.
- A que ponto você quer chegar? – ele pergunta, como se tivesse prenunciado o que ela não disse.
- Você sabe – ela graceja.
- Sei não, não sei.
 - Falta força em você, mesmo. Força pra dizer pra si mesmo que não quer mais aquilo.
- Que aquilo? Minha mulher?
- Eh... Essa vida toda que você leva.
- Ela não é aquilo. Pega leve aí, minha filha. Deve estar falando da sua vida e tenta descontar em mim... Poxa – ficou bravo.
- Ai, não, seu bobo... não se ofende! Longe de mim desmerecer sua namoradinha.
- Esposa.
- É, esposa.
- Quer que eu pense o quê? – pergunta, procurando manter a calma e a compostura, apesar de apresentar uma vermelhidão profunda no rosto.
- Ah, Thiago... Só acho que te falta coragem.
- Coragem? – e respira bem fundo – Coragem eu tenho, pode ficar tranquila.
- Posso apostar?
- Aposta o quanto quiser!
- Eu aposto um real que não.
Ele lança um olha desafiador mais ou menos alienado, ela gosta. Arrumou para a cabeça. Arrumaram.
Thiago chega em casa e tenta encontrar algum resquício deixado para trás. No quarto, pensa sozinho naquilo que pode ser a melhor decisão, até chora em conflito, com o orgulho um pouco ferido e a cabeça perdida. Um tempo depois sai do quarto recomposto. Propõe sair.
Leva a mulher ao restaurante, cinema, até compra para ela um vestido no shopping. Ela nem parece acreditar em tamanha bondade fora de época. Eles brincam, reparam em quem passa por eles, conversam como há tempos não faziam. Existe veracidade na alegria deles.
Há como reverter, mas restam dúvidas. Thiago se pergunta ao longo da noite se ama ou não ama, num incessante e fastidioso círculo sem nexo. Algo mais que cutuca a consciência: é aquela provocação de Carla que virou fardo.
Logo no fim da noite, já na cama, Thiago diz que convidou um casal para ir lá no sábado. Tudo bem para ela.
Por um capricho idiota ele se sente na obrigação de chocar todo mundo.
Dia seguinte manda um e-mail para Carla:
JANTAR EM MINHA CASA: AMANHÃ, 20H. VOCÊ E O MARIDÃO. APOSTO QUE VOCÊ TEM CORAGEM.
Respondeu o e-mail marcando presença. E passou o expediente sem trocar palavra com Thiago, só olhares.
À noite, Carla fala sobre o convite com o marido, que reclama e diz que não é muito de ir à casa dos outros que não conhece. Tenta mais tarde, pede meia hora depois, na hora seguinte, na quarta vez ele cede. Com isso já inventa na cabeça o que irá vestir para ser mais bonita do que ela.
Thiago pede à mulher para fazer strogonoff de frango, prato preferido de Carla. A generosidade espontânea dela – como se estivesse retribuindo o passeio, o vestido, e todo o resto do dia anterior – é tanta que preparará um de frango e outro de carne. Thiago trata de comprar três garrafas de vinho tinto e um engradado de cerveja, caso o maridão prefira. Prenuncia-se um jantar feliz.
A comida quase pronta, um trato rápido na sala. Todos aprumadinhos, bem perfumadinhos e relativamente sobrecarregados, receio de não terem tanto assunto para queimar a noite toda, mas há bebida suficiente para gerar desinibição uma hora ou outra.
Oito e quinze e chegam os convidados. Thiago recebe Carla e Sandro, que cumprimentam Flávia, que sai da cozinha meio desengonçada e tímida, tropeçando no tapete. Vieram munidos de uma caixa trufas e uma garrafa de vodca. Os olhares de Carla sob Flávia são de um desdém contido, assim julga Thiago, que faz sala para Sandro enquanto Flávia vai até a cozinha buscar uns aperitivos, Carla oferece ajuda e vai também em seguida, rebolando levemente, como faz no trabalho.
Thiago e Sandro são opostos, mas os santos batem. Cada um faz duas ou três perguntas babacas sobre trabalho e times de futebol, depois se calam e alternam os olhares ora para os respectivos sapatênis, ora para a televisão. Já está na hora de começar a beber, ambos sentem a necessidade de se ocupar com um copo.
Elas voltam com duas bandejas, uma com queijo parmesão com orégano e azeite e outra com uma cesta de torradas e um pote cheio até a boca de patê de azeitona feito por Flávia. Thiago oferece vinho, todos aceitam. E brindam e bebem e comem e se empanturram de bobagens cotidianas e olhares difusos enquanto evapora a água do arroz. Depois de uma taça entornada mais rápido que a dos demais presentes, Carla pede um copo d’água e Thiago vai buscar. Thiago, cínico por completo. Novamente, Carla se levanta e o segue até a cozinha. Ela sussurra, ele apenas fala:
- O que significa esse convite? – pergunta Carla.
- Só pra te mostrar. Mostrar você pra ela. Eu pra ele, normal.
- Normal? Que é que tem de normal isso?
- Ué, a gente não se conhece? Acho normal te convidar pra fazer alguma coisa fora do trabalho.
- Com meu marido e sua esposa?
- Se fosse tão duro assim pra você, era só ter recusado o convite.
- Ah... mas fiquei curiosa.
- Com o quê?
- Queria ver como era aqui, vocês dois juntos.
- Pra quê? – ele ri, como se estivesse debochando.
- Curiosidade mesmo... sei lá. E queria ver você – ela sorri com aquele típico rosto reminiscente que sempre faz quando quer tirar algo. Mas ele apenas lhe dá o copo.
- Oh, a água.
- Acho que você não bate bem – diz decepcionada, sem retribuições carinhosas.
Ele dá de ombros.
Thiago mantém a postura ilesa com sucesso, aí desliga a panela do arroz e depois arruma a mesa. Flávia desliga a televisão e põe um som baixinho, Tim Maia Racional, o Volume Dois, Carla não seria capaz de escolher isso, pensou Thiago. As travessas sobre a mesa, todos a postos. Garfadas depois e todo mundo elogia. Carla não seria capaz de cozinhar assim, pensou Thiago mais uma vez.
Cada um repete o prato e acabam rapidamente com a comida. Agora se soltam mais, falam de Tim Maia e Cultura Racional e comida e vontade de viajar e essas coisas que ligam todo mundo com qualquer um perdido num jantar ou coisas do tipo. Tudo vai bem com as trufas na mesa e o vinho na cabeça. A simpatia de Flávia, o jeito engraçado de Thiago à vontade em sua própria casa. Sandro parece realmente estar gostando de ter saído de casa. O acolhimento daquele casal é quase tocante, julga ele no exagero da bebedeira, enquanto escuta o anfitrião falar sobre sua viagem ao Chile no início do ano. Por outro lado, Carla, numa infeliz paranoia, acredita estar ficando para trás mais e mais, tem a impressão de que não acompanha Flávia em todas as suas qualidades e conforto; permanece contida, mas continua com um sorriso esticado escondendo tudo, pelo menos ela se acha bem mais bonita. No fundo só é quase perua, e ela sabe disso.
Já tudo mais leve e brando após enxugarem as três garrafas de vinho. Todos levemente bêbados. E é esse o intuito de Thiago, deixar todo mundo bastante vulnerável. Ele apela para as cervejas e ainda traz uma garrafa de cachaça e a outra de vodca que trouxeram. Depois oferece caipirinhas, diz que é uma de suas especialidades. Ninguém toca nas cervejas, caipirinha de vodca para os quatro.
Tim Maia Racional Volume Dois pela terceira vez. Aumentam o som. Agora estão bêbados mesmo e quase toda a formalidade se esvai. Carla até brinca com Flávia, até esquece da posição defensiva que vinha cultivando sentada à mesa. Já Thiago prossegue a noite se precavendo à sua maneira, fica no sofá comendo o resto do queijo da bandeja observando os três bebendo mais e se acabando de rir por nada, dançando “O Caminho do Bem” e cantando tortuosamente, sem saberem a letra de música nenhuma. Até Sandro decide falar mais, e admite:
- Olha, eu assumo que quase decidi não vir... ia estragar tudo – e ri emitindo um timbre inesperado e agudo.
- Ia mesmo, ia mesmo... – repetem os outros três, quase em coro, como que para abafar aquela risada feia.
- A gente quase não sai assim, pra casa dos outros... né, amor? – e coloca a mão na cintura da mulher, que responde balançando a cabeça afirmativamente. – A gente também não é de beber muito, né? Não queria incomodar...
- Imagina. Fica à vontade! – diz Flávia.
- Obrigado, obrigado! – Sandro levanta o copo vazio com se estivesse propondo um brinde. Depois põe um dedo de vodca pura no copo e ri daquele jeito mais uma vez.
- E eu que achei estranho o Thiago chamar vocês pra cá assim, do nada. Nunca tinha me falado de vocês.
Carla, com muita boa vontade e como se quisesse acabar com o resquício de tensão de uma vez por todas, pergunta mais ou menos na inocência, ou na burrice, da bebedeira:
- Verdade, Thiago, verdade... Você tá muito quieto aí! Conta pra gente o motivo desse jantar.
- Motivo? Não sei o motivo. É coisa que qualquer um faz de vez em quando, né?
Flávia cessa Tim Maia, procurando outro som. Curiosamente, apagam todos os ruídos da sala. Thiago pensa bem, mas rápido, e fala:
- Na verdade é porque a Carla me deve um real.
Os três choram de rir. Flávia, assustadoramente efusiva, se rende, caindo no chão; Sandro, encostado na parede, abre um sorriso de ponta a ponta segurando um copo de cerveja trêmulo; Carla dá gargalhadas com um ar de agonia e desespero, como se já estivesse se punindo internamente pela besteira e por aquilo que acabara de fazer aquele filho da puta de dizer. Thiago apenas observa o estado de todo mundo. Flávia retoma as forças e se levanta, percebe o marido com um ar quase soturno.
- Você tá falando sério? – ela pergunta.
- Claro.
- Mas o que tem de tão importante nisso?
- Acontece que apostamos – agora Carla fica alerta, perceptivelmente aflita. Ele retoma o fôlego e, finalmente transparecendo a embriaguez, prossegue. – Um dia desses, ela apostou comigo que eu não tinha coragem de dizer pra mim mesmo que não quero mais certas coisas.
- Certas coisas? – repete Flávia – Que porra de conversa esquisita – agora em tom bastante sério.
- Não, eu não disse isso, seu doido! – retruca Carla, meio ruborizada, tentando manter a leveza.
- Nessa semana... – Carla puxa seu braço, tentando impedi-lo de falar – não, agora eu quero dizer pra eles aqui o que aconteceu, me deixa! – se livra dela com um pouco de rispidez e prossegue com a voz alcoolizada, comendo sílabas – Eu...
- Eu o que, cacete!?!
- Acontece que nessa semana a gente se beijou.
(...)
- Ah, mas que beleza! É só isso que tem pra falar? – Flávia pergunta com uma ironia amedrontadora após um rígido e demoroso espaço de tempo.  
- É, é só isso que eu tinha pra dizer.
Ele levanta os braços num gesto que poderia significar muitas coisas. Espera por algum diálogo dos piores, porém não vê a reação de ninguém, apenas um silêncio morto e doloroso. Talvez estivesse fazendo uma tempestade desnecessária, pura questão de perspectiva. Mas se sente na obrigação de continuar falando sem nenhuma direção ou cuidado:
- Acontece que acho que Carla queria que eu assumisse pra mim mesmo que eu quero botar tudo a perder e acontece que estou botando tudo a perder e decidi que estou arrependido e também decidi foder com toda essa merda dessa porra toda aqui... Não quero saber de mais nada disso e tanto faz a situação agora! É isso aí, tudo o que eu precisava dizer.
 Dez enfadonhos segundos depois ele cobra de Carla:
- E cadê a minha moeda?
Carla tira uma moeda de dentro da bolsa e joga com violência no rosto de Thiago, dramatizando a cena e ferindo sua bochecha de modo que em outra circunstância teria sido estranhamente engraçado. Flávia chora, Carla xinga tudo o que é possível de tudo o que é possível e Sandro, bêbado como um gambá fenomenal, volta a rir, sem ninguém entender sua reação. Dava pena.
- Por isso que veio com todo aquele fogo pra casa um dia desses, foi? – Carla baixa a guarda – Ai ai ai, menina, viu!
Bate amigavelmente no ombro de Thiago, que por sua vez se esquiva com medo de levar uma porrada na cara. Sandro pega a garrafa de vodca da mesa, “Cara, valeu, pode ficar com ela! Eu fico com o resto do que eu trouxe pra cá, fica tranquilo, você me fez um favor”, e sai sozinho. Depois se ouve os pneus cantando e uma longa comida de marcha antes de dobrar a esquina.
Por um momento, todos os três olham para baixo.
Flávia enxuga as lágrimas e some a embriaguez:
- Como é que fica isso?... Como você me faz preparar comida pra quem você quer comer?
Sem se preocupar em como fará para chegar em casa sem o carro, Carla corre até a porta ainda aberta e sai cambaleando num ziguezague deselegante sem a necessidade dizer tchau.
O casal fica ali, sem um olhar para a cara do outro. Falando bobagens até de manhã, na boa vontade de tentar encontrar uma saída.
Thiago nem se lembra mais daquele beijo, faz questão de apagar para sempre o contentamento que chegou a provar no flerte com a outra. “Como era suja”, pensa com pesar naquela moeda toda vez que percebe como é difícil reconstruir a felicidade com Flávia, que ainda é sua esposa com a condição de que não cozinhará sabe lá até quando e nada de “O Caminho do Bem” naquele lar.  
Nunca mais pisou naquela repartição sentindo-se vulnerável. Carla tomou outro caminho, para bem longe, e não se sabe mais quem ela foi ali. 

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