segunda-feira, 7 de maio de 2012

"O Inquilino" (1976)

Acho que poucas vezes li um romance e assisti ao filme derivado do livro, menos ainda me surpreendi com o resultado das adaptações, o que é normal. Existe uma resistência do público em relação a isso, e normalmente os argumentos são compreensíveis. Às vezes é porque o longa-metragem não traz a profundidade do livro, outras por conta dos personagens que pouco se parecem com o original, ou pela carência de detalhes importantes que acabaram sendo deixados de lado, enfim...

De fato existem filmes que depois de assistidos quase estragam o charme do livro pra quem ainda não leu, ou quem leu o livro acaba dando uma de purista abominando o filme de tal maneira que ele acaba parecendo pior do que realmente é. Uso como exemplos as fracas versões cinematográficas de Pergunte ao Pó (2006) ou Trópico de Câncer (1970), indo mais pro popular, temos O Código Da Vinci (2006), que murchou o entusiasmo de muita gente. Mas este não é o caso de O Inquilino, de Roman Polanski. Lançado em 1976, o terceiro daquilo que é chamado por alguns de “Trilogia do Apartamento” – os outros são Repulsa ao Sexo (1965) e O Bebê de Rosemary (1968) – é um raro caso em que a película supera a matriz literária.

A obra original é do francês Roland Topor, que além de escritor também foi pintor e ator. Lançada em 1964, a novela alcançou grande sucesso comercial no mundo todo, sendo traduzida para diversos idiomas. Aqui no Brasil, a publicação ficou por conta da Editora Record.

Em relação à adaptação cinematográfica, pode-se dizer que é bem difícil passar por ela indiferente, goste ou não. E quem se interessa por suspense psicológico ou por personagens ambíguos e imprevisíveis, provavelmente assistirá mais de uma vez.

Em O Inquilino, Polanski é Trelkovsky, um polonês que vive na França. Em um antigo edifício cheio de idosos reclusos e excessivamente intolerantes, ele aluga um pequeno apartamento no qual a última inquilina, Simone Choule, cometera suicídio ao pular da janela.

A inimizade dos vizinhos, o aparente sarcasmo dos colegas de trabalho, a sensação de estar sendo vigiado, o problema de adaptação e mais uma série de incidentes relacionados à Simone – como o envolvimento com uma das amigas dela e a descoberta de um dos dentes da morta escondido em um buraco na parede do apartamento – faz com que lentamente cresça em Trelkovsky um sentimento de alienação que posteriormente se transforma em obsessão. Quando a obsessão vira paranoia, ele logo se convence de que seus vizinhos planejam transformá-lo em Simone, passando assim a demonstrar comportamentos de dupla personalidade e é aí onde tudo começa a ficar mais alegórico. Aversão, reflexões existenciais, raiva, androginia, delírios de perseguição. Contar mais estragaria.

Somente a atuação de Polanski já seria um bom motivo pra assistir, mas a trivialidade do enredo, a atmosfera pitoresca que envolve todo o filme, a trilha sonora e algumas sequências em que o protagonista sofre com alucinações somam um resultado assombroso.

Não só Polanski arrebata o espectador, mas sim todo o elenco, que é espetacular no sentido de acrescentar sutilezas. Cada personagem tem uma função definitiva pra nos estimular diversas sensações. As poucas vezes que Simone aparece em cena são pra causar as maiores tensões. Por exemplo, aquele grito horroroso logo nos primeiros dez minutos, que é um dos melhores exemplos que eu já vi de como um filme pode causar um medo dos infernos sem recursos mirabolantes. O proprietário do edifício, Monsieur Zy, e a senhora porteira – representados por Melvyn Douglas e Shelley Winters, respectivamente – nos transmitem diretamente aquele sentimento de perseguição comum por vizinhos bisbilhoteiros e inflexíveis. É como se o inquilino fosse o espectador o tempo todo.

Já Stella (Isabelle Adjani), amiga de Simone que se envolve com o protagonista, destoa um pouco do tom mórbido de todo o resto com sua beleza e um quê de compaixão, o que vez ou outra chega a aliviar. Os colegas de trabalho de Trelkovsky, por deixá-lo ainda mais tenso ao longo do filme, nos fazem compartilhar da mesma tensão. É engraçado como é fácil se envolver em histórias quando elas começam banais.   

Polanski é esperto, não apela. Vai cozinhando a fogo baixo, deixa a gente saborear o medo, depois conclui confundindo o espectador com algo chocante, o que torna o filme ainda mais especial. Certa vez li uma entrevista em que ele dizia que o fim de um longa-metragem nunca pode ser óbvio, senão logo na hora do jantar as pessoas estarão pensando em outra coisa. E nisso ele é mestre, basta lembrar de Chinatown (1974) ou o já citado Bebê de Rosemary.

Agora, rememorando a novela de Roland Topor, posso concluir que é uma obra que naturalmente atrai a atenção daqueles que curtem o gênero suspense, mas é um bom livro de entretenimento e só. Gostaria de ter lido antes de assistir ao filme, talvez agora eu pensasse diferente.

Por outro lado, certamente a adaptação para o cinema não comprometeu a versão literária, pelo contrário, Polanski deu mais vida à simples – não no sentido de banalidade – escrita de Topor. Intrincou a trama com imagens fortes, elevou a história do alienado e isolado Trelkovsky a status de grande obra de arte sem abrir mão da fidelidade ao best-seller lançado doze anos antes.

O filme está disponível na íntegra no You Tube, sem legendas.

Ficha

Título: Le Locataire
De Roman Polanski, França, 1976
Elenco: Roman Polanski (Trelkovsky), Isabelle Adjani (Stella), Shelley Winters (a Concièrge), Melvyn Douglas (Mr. Zy), Jo Van Fleet (Mme. Dioz), Bernard Fresson  (Scope), Lila Kedrova (Mme. Gaderian), Claude Dauphin, Claude Pieplu, Rufus, Romain Bouteille, Jacques Monod, Josiane Balasko
Roteiro: Roman Polanski e Gérard Brach
Baseado na novela Le Locataire Chimerique, de Roland Topor
Fotografia: Sven Nykvist
Música: Philippe Sarde
Produção: Alain Sarde, Marianne Productions
Cor, 125 min.

Por: Victor José

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