sexta-feira, 25 de maio de 2012

“O Terceiro Tiro” (1955)



É curioso o fato de todos os filmes de Alfred Hitchcock serem agradáveis mesmo com a persistência do sórdido.

Certa vez me disseram que assistir a qualquer trabalho dele é satisfação na certa. E é mesmo. Sua filmografia é um raro caso de comprometimento que não consigo comparar com a carreira de nenhum outro diretor. Digo isso por que o homem insistiu tanto no suspense que sua imagem dificilmente consegue se desvincular do gênero, mesmo quando faz comédia. E esse é o caso de O Terceiro Tiro (1955), um dos filmes mais peculiares de Hitchcock.


Nesta produção, originalmente intitulada The Trouble with Harry, o diretor mostra que a morte é capaz de ser divertida. O filme gira em torno de Harry, um defunto caído em uma floresta, com uma marca arredondada de sangue na testa. Alguns moradores do local acabam se deparando com o cadáver e ao mesmo tempo todos eles sentem uma parcela de culpa, pois não conseguem de fato chegar à conclusão de quem o matou. Essa indecisão se transforma na cumplicidade entre cinco personagens, que pretendem esconder a morte de Harry da polícia.

Há muitos pontos que podem ser destacados em O Terceiro Tiro, mas o que mais chama atenção é a leveza que o filme transpassa.

Os diálogos são leves, carregados do senso de humor britânico. O próprio Hitchcock certa vez mencionou que o filme contém alguns de seus diálogos favoritos dentre todos os filmes que ele fez. O romance entre Sam Marlowe (John Forsythe) e Jennifer Rogers (Shirley MacLaine, em seu primeiro papel no cinema) também é leve e ingênuo, bem diferente da provocação sensual presente em Um Corpo que Cai (1958), por exemplo. Há também o flerte entre o capitão Albert Wiles (Edmund Gwenn) e a solteirona Ivy Gravely (Mildred Natwick), que acaba rendendo atuações hilariantes. O garoto Arnie Rogers (Jerry Mathers), filho de Jennifer, também contribui para a comédia com sua natureza de pentelho.


A fotografia de autoria de Robert Burks é um caso à parte, é belíssima. Os tons alaranjados do outono de Vermont, nos EUA, transmite uma sensação de conforto como em nenhum outro longa-metragem de Hitchcock. Mesmo nas tomadas internas, Vermont está bastante presente. O filme apresenta cores vivas por toda sua extensão. Outro ponto crucial é a trilha sonora. A música principal soa tão adequada ao estilo de Hitchcock que anos depois, Bernard Herrmann, autor da trilha, utilizou trechos da peça musical para compor uma suíte em homenagem ao diretor.   

Curiosamente, O Terceiro Tiro fracassou nos EUA. Muito se justifica pelo fato de o humor negro predominante na produção ser absolutamente britânico, o que não agradou ao público. Já na França, por exemplo, o filme ficou em cartaz por mais de um ano, assim como na Inglaterra.

Com o passar dos anos, O Terceiro Tiro foi ganhando o devido reconhecimento. Atualmente, é comum ouvir pessoas admiradoras do mestre do suspense citarem este como um dos melhores filmes dele. Até o próprio Hitchcock afirmou que este era um de seus trabalhos favoritos. Vale a pena tirar sua própria conclusão.


Assista ao trailer neste link.


Ficha técnica 

Título original: The Trouble with Harry
Ano de lançamento: 1955
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: Alfred Hitchcock, Herbert Coleman,
Roteiro: John Michael Hayes, baseado no romance de Jack Trevor Story
Duração: 99 minutos
Elenco: John Forsythe (Sam), Edmund Glenn (Capitão Albert), Mildred Natwick (Sra. Gravely), Shirley McLaine (Jennifer), Jerry Mathers (Arnie)

Por: Victor José

Um comentário:

  1. De fato, Hitchcock é tecnicamente o único no gênero. Não vi esse filme, mas o cara brincava com a morte, usando a leveza e o humor. Um cara que se embrenhou em um gênero que até hoje é pouco atraído pelos outros profissionais e talentosos cineastas.

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