sexta-feira, 25 de maio de 2012

“O Terceiro Tiro” (1955)



É curioso o fato de todos os filmes de Alfred Hitchcock serem agradáveis mesmo com a persistência do sórdido.

Certa vez me disseram que assistir a qualquer trabalho dele é satisfação na certa. E é mesmo. Sua filmografia é um raro caso de comprometimento que não consigo comparar com a carreira de nenhum outro diretor. Digo isso por que o homem insistiu tanto no suspense que sua imagem dificilmente consegue se desvincular do gênero, mesmo quando faz comédia. E esse é o caso de O Terceiro Tiro (1955), um dos filmes mais peculiares de Hitchcock.


Nesta produção, originalmente intitulada The Trouble with Harry, o diretor mostra que a morte é capaz de ser divertida. O filme gira em torno de Harry, um defunto caído em uma floresta, com uma marca arredondada de sangue na testa. Alguns moradores do local acabam se deparando com o cadáver e ao mesmo tempo todos eles sentem uma parcela de culpa, pois não conseguem de fato chegar à conclusão de quem o matou. Essa indecisão se transforma na cumplicidade entre cinco personagens, que pretendem esconder a morte de Harry da polícia.

Há muitos pontos que podem ser destacados em O Terceiro Tiro, mas o que mais chama atenção é a leveza que o filme transpassa.

Os diálogos são leves, carregados do senso de humor britânico. O próprio Hitchcock certa vez mencionou que o filme contém alguns de seus diálogos favoritos dentre todos os filmes que ele fez. O romance entre Sam Marlowe (John Forsythe) e Jennifer Rogers (Shirley MacLaine, em seu primeiro papel no cinema) também é leve e ingênuo, bem diferente da provocação sensual presente em Um Corpo que Cai (1958), por exemplo. Há também o flerte entre o capitão Albert Wiles (Edmund Gwenn) e a solteirona Ivy Gravely (Mildred Natwick), que acaba rendendo atuações hilariantes. O garoto Arnie Rogers (Jerry Mathers), filho de Jennifer, também contribui para a comédia com sua natureza de pentelho.


A fotografia de autoria de Robert Burks é um caso à parte, é belíssima. Os tons alaranjados do outono de Vermont, nos EUA, transmite uma sensação de conforto como em nenhum outro longa-metragem de Hitchcock. Mesmo nas tomadas internas, Vermont está bastante presente. O filme apresenta cores vivas por toda sua extensão. Outro ponto crucial é a trilha sonora. A música principal soa tão adequada ao estilo de Hitchcock que anos depois, Bernard Herrmann, autor da trilha, utilizou trechos da peça musical para compor uma suíte em homenagem ao diretor.   

Curiosamente, O Terceiro Tiro fracassou nos EUA. Muito se justifica pelo fato de o humor negro predominante na produção ser absolutamente britânico, o que não agradou ao público. Já na França, por exemplo, o filme ficou em cartaz por mais de um ano, assim como na Inglaterra.

Com o passar dos anos, O Terceiro Tiro foi ganhando o devido reconhecimento. Atualmente, é comum ouvir pessoas admiradoras do mestre do suspense citarem este como um dos melhores filmes dele. Até o próprio Hitchcock afirmou que este era um de seus trabalhos favoritos. Vale a pena tirar sua própria conclusão.


Assista ao trailer neste link.


Ficha técnica 

Título original: The Trouble with Harry
Ano de lançamento: 1955
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: Alfred Hitchcock, Herbert Coleman,
Roteiro: John Michael Hayes, baseado no romance de Jack Trevor Story
Duração: 99 minutos
Elenco: John Forsythe (Sam), Edmund Glenn (Capitão Albert), Mildred Natwick (Sra. Gravely), Shirley McLaine (Jennifer), Jerry Mathers (Arnie)

Por: Victor José

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Pop Barroco

Se a música radiofônica da segunda metade do século XX – sobretudo o Rock – passou a ser mais inventiva e ao mesmo tempo levada mais a sério, deve-se muito a uma vertente denominada Pop Barroco.

Este estilo emergiu em meados dos anos 1960, quando produtores e compositores beberam da fonte da música erudita e trouxeram ao Rock ‘n’ Roll elementos orquestrais. O resultado foi provavelmente a primeira amostra de que um som feito basicamente pra adolescentes poderia soar mais rico e intenso. 

Competição criativa

Pode-se dizer que um dos alicerces do Pop Barroco é a canção “Be My Baby”, interpretada pelo grupo feminino The Ronettes e composto, produzido e arranjado por Phil Spector. Lançado em 1963, o sucesso apresentava uma sonoridade diferenciada por conta da chamada Wall of Sound, técnica de gravação desenvolvida por Spector. O segredo consistia em juntar no estúdio uma infinidade de músicos (algo exagerado como quatro guitarristas, dois baixistas, dois bateristas, piano, órgão, conjunto de cordas etc.) pra tocarem ao vivo a canção, sem edições. O efeito final era uma massa sonora que soava mais vigorosa do que as demais músicas do rádio.

E foi esse jeito peculiar de gravar, essa mistura de ingredientes inusitados no Rock que fez a cabeça de Brian Wilson, então baixista, produtor e compositor do The Beach Boys. A banda foi mudando gradativamente de direção estética. No single “When I Grow Up (To Be A Man)”, de 1964, nota-se a busca de Wilson por novas sonoridades pelo uso de um cravo. Nos álbuns posteriores, The Beach Boys Today! e Summer Days (And Summer Nights), a sofisticação vai ganhando mais corpo e a genialidade de Wilson começa a dar as caras.

Enquanto isso, os Beatles também começaram a alargar suas próprias fronteiras. Em Help! (1965) já havia um presságio de novos tempos com “Yesterday”, nitidamente mais madura que qualquer outra canção gravada pelo quarteto anteriormente. Mas no mesmo ano é lançado o LP Rubber Soul, este sim com um grupo realmente mais complexo e ousado. Somente a cítara de George Harrison em “Norwegian Wood” (instrumento até então nunca usado no Rock) já seria um bom motivo pra considerar Rubber Soul criativo e pioneiro em alguma coisa, mas Brian Wilson – de novo ele – enxergou ali algo ainda maior e absorveu o trabalho dos ingleses como um desafio, sentiu a necessidade de superá-los com algo ainda mais denso. E foi aí que veio Pet Sounds (1966) e o começo de uma batalha artística que renderia alguns dos maiores clássicos do Rock.

Brian Wilson parou de excursionar com o The Beach Boys. Com isso passou a se dedicar somente às composições e gravações enquanto o restante do grupo tocava pelo mundo. Pet Sounds somou mais de cinco meses de trabalho liderado por Wilson, que conseguiu captar o espírito juvenil e ao mesmo tempo uma sonoridade riquíssima em detalhes. Utilizando tudo o que fosse possível (de violoncelos e vibrafones a buzinas de bicicleta), o álbum é uma obra de arte sem precedentes. “God Only Knows” é considerada por muitos – incluindo Paul McCartney – como a melhor canção Pop de todos os tempos.

Os Beatles também vinham se dedicando mais às gravações do que às apresentações, tanto que, em 1966 anunciaram que passariam a trabalhar somente em estúdio. Esta atitude somou frutos que viriam a ser considerados os pontos altos da carreira do grupo, dentre eles, o LP Revolver, do mesmo ano, e Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, de 1967. Neste período a banda ditou as regras da cultura Pop, e “Strawberry Fields Forever”, “Penny Lane”, “Eleanor Rigby” e “A Day in The Life”, que traziam a abordagem do Pop Barroco, se transformaram em referência do que podia se considerar moderno na música.

Brian Wilson bem que tentou fazer algo num nível ainda acima, mas sucumbiu às drogas e à loucura. Começou a gravar o LP Smile em 1967, mas abandonou o projeto, que só viria a ser lançado em 2004 como projeto solo. Em 2011, para comemorar os 50 anos dos Beach Boys, saiu o Smile Sessions, com gravações da época. .

Contemporâneos

Houve uma infinidade de grupos seguindo essa tendência no período dos anos 1960, medalhões como os Rolling Stones, por exemplo. Apesar da sonoridade calcada no Blues dos primeiros álbuns, a banda investiu em alguns momentos no Pop Barroco. Apesar de o flerte com o erudito não ter perdurado, “Lady Jane”, “Ruby Tuesday” e “She’s a Rainbow” são músicas importantes para o subgênero.

O The Left Blanke, de Nova Iorque, também foi um expoente crucial pra concepção do estilo. O compositor e tecladista da banda, Michael Brown, foi muitas vezes comparado a Lennon, McCartney e Wilson por conta de seu talento em fazer melodias sofisticadas e da ambição de introduzir elementos mais sérios na música Pop. Muita gente considera o primeiro álbum, Walk Away Reneé/Pretty Ballerina (1966), como o exemplo mais bem acabado da fusão do Pop com o erudito.   

Bandas como The Zombies aprimoraram o estilo seguindo os passos de Pet Sounds e Sgt. Peppers. O grupo britânico estava pra se desfazer quando juntou os cacos e fez um LP emblemático. Odessey and Oracle (1968), foi preparado sem a pressão da gravadora por algum sucesso, detalhe que acabou sendo resolvido naturalmente, pois “Time of The Season” agradou ao público em geral. Dada essa liberdade, o grupo pode abusar o quanto quisesse do experimentalismo, e o resultado foi um disco aclamado pela crítica até hoje. Odessey and Oracle, por fim, selou a dissolução do The Zombies, que foi coincidentemente seu momento mais prolífero.

Um caso similar à situação do The Zombies e que também deu bastante certo foi terceiro disco do grupo norte-americano Love. A banda liderada por Arthur Lee já havia conseguido algum sucesso na cena com o álbum Da Capo (1966), mas Forever Changes (1967) a música atinge outro patamar. O Love passava por um período de brigas internas e ameaças de dissoluções. Lee, que depois de uma viagem de LSD previu sua morte, estava determinado em deixar suas últimas palavras em vida (daí o título Forever Changes), e estimulou o grupo a gravar o álbum. São onze músicas coesas, impecáveis. Pode-se dizer que “Andmoreagain”, “You Set The Scene” e “Alone Again Or” são sinônimos de Pop Barroco. Os arranjos de cordas e metais permeiam quase todo o LP e complementam a banda de modo tão satisfatório que não dá pra separar uma coisa da outra.    

No decorrer dos anos, uma infinidade de artistas buscaram fazer esse contrapeso do moderno com o clássico: Moody Blues, Serge Gainsbourg, Pink Floyd, Scott Walker, Nico, Nick Drake, The Hollies, Sagittarius, The Free Design, Simon & Garfunkel...

No Brasil

Em 1966, o The Jordans, grupo instrumental brasileiro, gravou “Tema de Lara”, do filme Doutor Jivago, com arranjos arrojados em comparação com o conceito do Rock brasileiro. Um ano depois, a banda tocou na Europa, absorveu as influências e na volta gravaram “Walk Away”, do The Left Blanke, que em português ficou “Alguém Chorou”.

Por aqui, o estilo foi um forte aliado ao som dos Tropicalistas. A influência de Sgt. Peppers no LP coletivo Tropicália ou Panis et Circesis (1968) está escancarada, basta conferir “Baby” e “Enquanto Seu Lobo Não Vem”. O nome por trás disso é Rogério Duprat, maestro arranjador que trabalhou com a maioria dos artistas do movimento e aproximou um pouco mais os brasileiros das tendências internacionais. Dentre os Tropicalistas, os Mutantes se destaca como o grupo mais fincado nessa proposta orquestral, principalmente nos seus três primeiros trabalhos de estúdio.

Até Ronnie Von, antes mero galã das garotinhas, lançou em 1969 um emblemático álbum homônimo com excelentes canções de Pop Barroco, que na época foi mal compreendido pelo seu público acostumado com canções fáceis.

Legado

Dá pra dizer com tranquilidade que muitos subgêneros não existiriam sem o Pop Barroco. Sua importância está intacta e perdura até hoje por meio de uma porção de filhos e netos bem sucedidos, dentre eles, figuras do Rock Sinfônico como Yes e ELP, o chamado Art Rock do Queen em A Night at The Opera (1975), a Neopsicodelia do Echo & The Bunnymen em Ocean Rain (1984), o Rock alternativo do Smashing Pumpkins, Arcade Fire e The Last Shadow Puppets. É muita coisa. É quase impossível vislumbrar o Pop sem 1966 e 1967.

Para entender o Pop Barroco, recomendo escutar as seguintes músicas:

“Pretty Ballerina” – The Left Blanke
“Still You Believe in Me” – The Beach Boys
“Out Of Time” – The Rolling Stones
“A Rose For Emily” – The Zombies
“It’s Raining Today” – Scott Walker
“For No One” – The Beatles
“Fly” – Nick Drake

Por: Victor José

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Henry Miller: “Sexus”, “Plexus” e “Nexus”


De tudo que li até hoje, não me lembro de nenhum autor mais honesto que Henry Miller (1991 -1980). Tinha a escrita solta e não se apegava a enredos.

Influência direta da geração Beat e de grande parte da literatura contemporânea, sua prosa era rica e bem estruturada à sua maneira. Por dispensar a prudência em relação às palavras, Miller muitas vezes abusou dos limites estipulados na época, sendo taxado como “escritor maldito” e seus trabalhos considerados degradantes por conter muitas vezes obscenidades e passagens sexualmente explícitas.

É injusto lembrar de Miller basicamente como um pornográfico desbocado. Apesar dessa estigma que o acompanhou pra sempre, ele tinha com a mesma intensidade e excelência a característica de ser livre e parecer capaz de tratar sobre qualquer anseio humano. Nas palavras do próprio: “A literatura moderna sofre precisamente porque os escritores se abstêm de nos oferecer o homem em todas as grandezas e baixezas de seu ser. E o público, já muito habituado a esse tipo de amputação prescrita, perdeu o interesse maior. Na realidade, pouca revolta de qualquer espécie é permitida ao homem moderno”.


Adotando predominantemente o recurso da autobiografia embaralhada com ficção, Henry Miller insistia nessa fórmula de constante libertação. Ao longo dos anos, o livro Trópico de Câncer (1934) foi apontado pela crítica como o exemplo mais contundente de sua bibliografia, mas é em Sexus (1949), Plexus (1953) e Nexus (1959) que ele atinge o ápice da elaboração na crueza de seu estilo.

A Crucificação Encarnada – assim é chamada a trilogia – é um monumento literário de mais de 1.300 páginas. Nele, o autor conta sua vida na Nova Iorque dos anos 1920 e 1930. A cena boêmia de Brooklin, seus perrengues financeiros, suas aventuras sexuais, pessoas das mais distintas personalidades e a transformação de alguém sem perspectivas chegando gradativamente ao posto de promissor escritor. Tudo é real no sentido mais profundo, e o charme está no fato de Miller contar sua peculiar trajetória do modo mais correto: sem maquiar os próprios sentimentos, se abrindo completamente.

No prefácio de Plexus, Henry elucida bem o que a trilogia aborda: “Através da crucificação uma pessoa pode ser ressuscitada... ou ‘transformada’, se preferirem assim. Minha ideia, muito simples, foi a de contar, sem pensar no número de páginas, a história do período mais pungente de minha vida, a saber, os sete anos antes de minha fuga voluntária para a França. Parte considerável da narrativa refere-se à luta que travei para me expressar em palavras – eu comecei tarde! –, às dificuldades para ganhar a vida, à luta com o meu próprio ser complexo, aos encontros com outros homens e mulheres na condição de ‘errante facínora cultural’, e assim por diante. E mais do que tudo, talvez, ao meu esforço para compreender o esquema de minha vida, seu propósito e sua significação”.     

Sexus chega a chocar quem não está acostumado com esse tipo de literatura. Neste livro contém as primeiras manifestações de um bon vivant notável. Miller está pra fazer trinta e três anos, mantém um frio casamento com sua esposa Maude e trabalha em uma companhia de telégrafos enquanto sonha em ser escritor. Ao mesmo tempo em que se apaixona perdidamente pela dançarina Mona (June Miller na vida real, foto abaixo), Henry experimenta fugir da estabilidade que não o faz progredir e vai alimentando essa ruptura a cada capítulo percorrido. Se envolve com artistas, pirados e boêmios, passa a viver com a dançarina, deixando Maude com a filha pequena. Somado a tudo isso, há o sexo, detalhe que o acompanha em todo o livro. Vale ressaltar que quando não há transas e passagens eróticas, há o contrapeso de uma enxurrada de reflexões existenciais, monólogos filosóficos a respeito dos mais diversos assuntos. São várias as passagens em que Miller beira a pornografia, mas definitivamente Sexus supera qualquer preconceito literário caso o leitor seja atento o suficiente à sensibilidades.    

Quando se chega a Plexus, encontramos o protagonista já imerso nessa vida, com Mona sendo sua cúmplice. Nesse ponto, o narrador está buscando meios de se encontrar na escrita e ao mesmo tempo procura se virar com seu modo nada ortodóxo de viver sem as convencionalidades de um emprego estável. Dentro de Plexus está uma extensão ainda maior da personalidade de Miller. As reflexões e divagações são ainda mais frequentes. Às vezes torna-se cansativo, mas ao mesmo tempo pode ser definido como a base da trilogia. Liga Sexus a Nexus como se fosse a fase adulta de uma vida dentro de outra vida.

No caso de Nexus, a perambulação novaiorquina atinge a maturidade. Há também o relacionamento abalado com Mona, que agora se envolve com Anastasia e juntas vão à França, deixando Henry na mão. Neste último volume da trilogia, há mais densidade na descrição dos sentimentos e nas ideias compartilhadas pelo autor. É como se Nexus realmente representasse a conclusão de toda uma história, o que é verdade somente em parte. Em Trópico de Câncer encontramos o mesmo Henry, novamente deslumbrado como em Sexus, porém se aventurando em Paris.

Assim como ocorreu com alguns outros títulos de sua autoria, a trilogia foi proibida em uma série de países, incluindo o Brasil, por julgarem a liguagem abusiva e o conteúdo “imoral”. Muitos artistas, intelectuais e apreciadores sairam em defesa Henry Miller, e na década de 1960 todos os livros foram finalmente liberados.

Henry Miller tornou-se notável referência pra literatura feita até então. Desde o início de sua trajetória com as letras, sempre foi elogiado por alguns de seus contemporâneos, como Ezra Pound, Anaïs Nin – com quem se envolveu durante sua temporada na França – e George Orwell, que na década de 1940 chegou a afirmar que Henry era o único excelente escritor de prosa imaginativa que havia aparecido na língua inglesa naqueles últimos anos.

Ao longo do tempo, pode-se perceber a presença de Miller em parte da literatura mundial, sobretudo na arte norte-americana que veio sendo desenvolvida a partir de meados da década de 1940. Allen Ginsberg, William S. Burroughs, Charles Bukowski, Thomas Pynchon… Na verdade, Henry Miller é um gênio que continuará sendo reverenciado enquanto houver pessoas interessadas na complexidade dos desejos e no que de fato é um ser humano desprendido.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

"O Inquilino" (1976)

Acho que poucas vezes li um romance e assisti ao filme derivado do livro, menos ainda me surpreendi com o resultado das adaptações, o que é normal. Existe uma resistência do público em relação a isso, e normalmente os argumentos são compreensíveis. Às vezes é porque o longa-metragem não traz a profundidade do livro, outras por conta dos personagens que pouco se parecem com o original, ou pela carência de detalhes importantes que acabaram sendo deixados de lado, enfim...

De fato existem filmes que depois de assistidos quase estragam o charme do livro pra quem ainda não leu, ou quem leu o livro acaba dando uma de purista abominando o filme de tal maneira que ele acaba parecendo pior do que realmente é. Uso como exemplos as fracas versões cinematográficas de Pergunte ao Pó (2006) ou Trópico de Câncer (1970), indo mais pro popular, temos O Código Da Vinci (2006), que murchou o entusiasmo de muita gente. Mas este não é o caso de O Inquilino, de Roman Polanski. Lançado em 1976, o terceiro daquilo que é chamado por alguns de “Trilogia do Apartamento” – os outros são Repulsa ao Sexo (1965) e O Bebê de Rosemary (1968) – é um raro caso em que a película supera a matriz literária.

A obra original é do francês Roland Topor, que além de escritor também foi pintor e ator. Lançada em 1964, a novela alcançou grande sucesso comercial no mundo todo, sendo traduzida para diversos idiomas. Aqui no Brasil, a publicação ficou por conta da Editora Record.

Em relação à adaptação cinematográfica, pode-se dizer que é bem difícil passar por ela indiferente, goste ou não. E quem se interessa por suspense psicológico ou por personagens ambíguos e imprevisíveis, provavelmente assistirá mais de uma vez.

Em O Inquilino, Polanski é Trelkovsky, um polonês que vive na França. Em um antigo edifício cheio de idosos reclusos e excessivamente intolerantes, ele aluga um pequeno apartamento no qual a última inquilina, Simone Choule, cometera suicídio ao pular da janela.

A inimizade dos vizinhos, o aparente sarcasmo dos colegas de trabalho, a sensação de estar sendo vigiado, o problema de adaptação e mais uma série de incidentes relacionados à Simone – como o envolvimento com uma das amigas dela e a descoberta de um dos dentes da morta escondido em um buraco na parede do apartamento – faz com que lentamente cresça em Trelkovsky um sentimento de alienação que posteriormente se transforma em obsessão. Quando a obsessão vira paranoia, ele logo se convence de que seus vizinhos planejam transformá-lo em Simone, passando assim a demonstrar comportamentos de dupla personalidade e é aí onde tudo começa a ficar mais alegórico. Aversão, reflexões existenciais, raiva, androginia, delírios de perseguição. Contar mais estragaria.

Somente a atuação de Polanski já seria um bom motivo pra assistir, mas a trivialidade do enredo, a atmosfera pitoresca que envolve todo o filme, a trilha sonora e algumas sequências em que o protagonista sofre com alucinações somam um resultado assombroso.

Não só Polanski arrebata o espectador, mas sim todo o elenco, que é espetacular no sentido de acrescentar sutilezas. Cada personagem tem uma função definitiva pra nos estimular diversas sensações. As poucas vezes que Simone aparece em cena são pra causar as maiores tensões. Por exemplo, aquele grito horroroso logo nos primeiros dez minutos, que é um dos melhores exemplos que eu já vi de como um filme pode causar um medo dos infernos sem recursos mirabolantes. O proprietário do edifício, Monsieur Zy, e a senhora porteira – representados por Melvyn Douglas e Shelley Winters, respectivamente – nos transmitem diretamente aquele sentimento de perseguição comum por vizinhos bisbilhoteiros e inflexíveis. É como se o inquilino fosse o espectador o tempo todo.

Já Stella (Isabelle Adjani), amiga de Simone que se envolve com o protagonista, destoa um pouco do tom mórbido de todo o resto com sua beleza e um quê de compaixão, o que vez ou outra chega a aliviar. Os colegas de trabalho de Trelkovsky, por deixá-lo ainda mais tenso ao longo do filme, nos fazem compartilhar da mesma tensão. É engraçado como é fácil se envolver em histórias quando elas começam banais.   

Polanski é esperto, não apela. Vai cozinhando a fogo baixo, deixa a gente saborear o medo, depois conclui confundindo o espectador com algo chocante, o que torna o filme ainda mais especial. Certa vez li uma entrevista em que ele dizia que o fim de um longa-metragem nunca pode ser óbvio, senão logo na hora do jantar as pessoas estarão pensando em outra coisa. E nisso ele é mestre, basta lembrar de Chinatown (1974) ou o já citado Bebê de Rosemary.

Agora, rememorando a novela de Roland Topor, posso concluir que é uma obra que naturalmente atrai a atenção daqueles que curtem o gênero suspense, mas é um bom livro de entretenimento e só. Gostaria de ter lido antes de assistir ao filme, talvez agora eu pensasse diferente.

Por outro lado, certamente a adaptação para o cinema não comprometeu a versão literária, pelo contrário, Polanski deu mais vida à simples – não no sentido de banalidade – escrita de Topor. Intrincou a trama com imagens fortes, elevou a história do alienado e isolado Trelkovsky a status de grande obra de arte sem abrir mão da fidelidade ao best-seller lançado doze anos antes.

O filme está disponível na íntegra no You Tube, sem legendas.

Ficha

Título: Le Locataire
De Roman Polanski, França, 1976
Elenco: Roman Polanski (Trelkovsky), Isabelle Adjani (Stella), Shelley Winters (a Concièrge), Melvyn Douglas (Mr. Zy), Jo Van Fleet (Mme. Dioz), Bernard Fresson  (Scope), Lila Kedrova (Mme. Gaderian), Claude Dauphin, Claude Pieplu, Rufus, Romain Bouteille, Jacques Monod, Josiane Balasko
Roteiro: Roman Polanski e Gérard Brach
Baseado na novela Le Locataire Chimerique, de Roland Topor
Fotografia: Sven Nykvist
Música: Philippe Sarde
Produção: Alain Sarde, Marianne Productions
Cor, 125 min.

Por: Victor José