terça-feira, 4 de dezembro de 2012

"Crossfire Hurricane", novo documentário dos Stones


Assim que os Rolling Stones completaram cinquenta primaveras, muito se especulou sobre o que poderia sair para celebrar essa façanha. Já se esperava algo que enchesse os olhos, como aconteceu há dez anos atrás, quando fora lançada a coletânea Forty Licks e todos os seus “parentes” em seguida: turnê mundial, o DVD quádruplo Four Flicks e o álbum ao vivo Live Licks.

Enfim, depois de a maioria torcer por um novo disco e uma série de shows pelo mundo, foi anunciado então o lançamento de um belo livro de fotografias, a coletânea Grrr! (com duas boas canções inéditas), uma mini-turnê de quatro shows caríssimos e, por fim, o documentário Crossfire Hurricane, que veio com a promessa de cobrir todo o meio século de vida da banda.

Talvez pela grandiosidade que esses cinquenta anos significam ou mesmo pelo resultado final, o filme infelizmente deixa a desejar. Dirigido por Brett Morgen, Crossfire Hurricane é um trabalho competente, mas o fato é que os Stones continuam devendo um filme definitivo, algo em um formato que conte essa extensa e singular história como de fato ela merece ser contada.

Apesar de trazer uma enxurrada de depoimentos dos próprios Stones (inclusive dos ex-integrantes), o produto documental é um pouco superficial. Para quem conhece bem a filmografia do grupo, logo de cara perceberá que muitos dos filmes mais clássicos, como Gimme Shelter (1970), Let’s Spend The Night Together (1982) e principalmente Ladies and Gentleman: The Rolling Stones (1973) aparecem em demasia para rechear o longa, causando assim uma impressão de estar chovendo no molhado.

Crossfire Hurricane dá aquela sensação de que os 111 minutos do filme poderiam facilmente durar o dobro ou mais. Mesmo porque, chega-se a um determinado ponto da trajetória, mais ou menos no início da década de 1980, e o filme acaba meio que do nada... Mancada feia.



Comparando com o documentário 25x5 (1989), que saiu logo que o grupo completou 25 anos de estrada, Crossfire Hurricane ganha fácil em beleza e apelo, porém perde em informação. Agora, deixando de lado a análise mais profunda, o lançamento é gostoso de assistir, aliás, tratando-se de Rolling Stones, é quase certo de que haverá alguma boa diversão. E talvez seja isso que o filme tenha como propósito no final das contas: uma amostra despretensiosa da grandiosidade da maior banda de rock do mundo.

Enfim, se o filme não te agradar, pelo menos o som com certeza não vai te deixar na mão, o que já é um bom motivo para assisti-lo sem medo de sair perdendo.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

“Na Estrada” (2012)


Há casos em que é bom não traçar um paralelo entre uma coisa e outra, e no caso de Na Estrada, o novo filme de Walter Salles, tentar fazer isso vai bem.

Claro que é praticamente impossível não comparar sua qualidade com a de On The Road, livro de Jack Kerouac que deu origem ao filme, mas digo isso porque o longa-metragem tem seus méritos por si só, independente da fidelidade de seu roteiro com o romance. Afinal, depois de tantas tentativas desastrosas, até que enfim chega aos cinemas uma adaptação da mais celebrada obra da Geração Beat.

A sinopse é a seguinte: em Nova Iorque vive Sal Paradise (Sam Riley), que é um aspirante a escritor que acabara de perder o pai. Ao conhecer Dean Moriarty (Garrett Hedlund), Sal radicaliza e, por influência do amigo, passa a viver intensamente em busca da liberdade em diversos sentidos: sexo, drogas e literatura. Logo Sal e Dean se tornam grandes amigos, dividindo a parceria com a jovem Marylou (Kristen Stewart), que é amante de Dean. Os três viajam pelas estradas do interior do país procurando fugir de regras e da monotonia de uma vida ordinária.

Sam Riley, que obteve destaque interpretando Ian Curtis em Control, conseguiu criar um Paradise convincente, tanto nos trejeitos do personagem como na qualidade da interpretação. Já o Dean Moriarty de Garrett Hedlund é ainda mais contundente, e, para quem leu On The Road, encontra no filme o herói do romance com seu jeito errático e frenético realçado. Kristen Stewart – que primeiramente me soou apenas como uma estratégia para atrair um público maior às bilheterias – esteve bem interpretando Marylou e provou que é capaz de fazer papéis mais densos.

Há também alguns personagens importantes que aparecem menos, mas que devem ser lembrados. Kristen Dunst, que faz a esposa de Dean, Camille, participa mas não surpreende. O mesmo se dá com Alice Braga (Terry). Já o Old Bull Lee interpretado por Viggo Mortensen é seguramente um dos personagens mais seguros e bem construídos, enquanto Tom Sturridge faz um Carlo Marx exagerado e não muito bom.

O filme não decepciona, mas também não muda vidas. Ou melhor, decepciona aquele que espera um On The Road visual contendo todos seus pormenores, mesmo sabendo que isso tornaria o longa intolerável.

Pode-se dizer que tanto a trilha sonora quanto a fotografia são um caso à parte, o forte do longa-metragem está seguramente nessas categorias. Na Estrada é permeado de velhos blues e jazz, e a cada dois minutos apresenta uma bela paisagem dos EUA ou México. Por outro lado, há alguns detalhes que mereciam mais cuidado, principalmente o figurino, o qual é muito ruim e não nos remete muito bem àquela época em alguns momentos.

Por fim, se você for ao cinema achando que encontrará um filme tão frenético quanto o livro, voltará para casa um pouco decepcionado. Se você que nunca leu On The Road for ao cinema procurando entender o que tanto falam da obra literária, provavelmente voltará para casa dividido entre começar a ler o livro imediatamente ou passar bem longe dele. Agora, se você for ao cinema procurando apenas por um bom filme, vazio de todas as expectativas acerca desse mito da Geração Beat, voltará satisfeito e quem sabe querendo assistir mais de uma vez.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Joni Mitchell - "Blue" (1971)


Recentemente escutei Blue (1971) três vezes seguidas e não encontrei um erro sequer, nada fora do lugar, nenhuma nota mal executada. A qualidade das faixas sempre me impressiona. Isso sem contar toda aquela sensibilidade em ebulição durante seus 35 minutos e poucos. São canções que emocionam facilmente qualquer um disposto a relaxar e curti-las, seja pelas melodias, seja pelas letras ou por qualquer outro detalhe. Analisando a esfera da música folk/pop rock, é muito justo afirmar que pouquíssimos artistas alcançaram excelência semelhante à deste álbum.

Naquela época de sua carreira, Joni Mitchell passava por mudanças significantes. Por conta do grande sucesso alcançado nos anos anteriores ao Blue, a cantora, sempre avessa à grandes públicos, havia decidido parar de se apresentar por um tempo. Além disso, ela havia terminado um longo relacionamento com Graham Nash, do grupo Crosby, Stills, Nash & Young e ex-The Hollies. Com isso, ela tirou umas férias e foi à Europa para acalmar os ânimos, e foi lá que ela escreveu quase todas as canções do álbum.

Em uma entrevista para a revista Rolling Stone em 1979, ela disse: “Blue foi um momento decisivo de muitas maneiras. No Blue, quase não há uma nota desonesta nos vocais. Naquela época da minha vida, não possuía defesas pessoais. Me sentia como papel celofane num maço de cigarros. Sentia como se não tivesse segredos do mundo, e não pudesse fingir que minha vida era forte. Mas a vantagem disso na música era de que não havia defesas ali também”.

É justamente essa vulnerabilidade que seduz o ouvinte logo na primeira audição. Em Blue, Mitchell interpreta temas reflexivos como relacionamentos, solidão e anseios pessoais de modo tão honesto que passamos a aceitar a melancolia como um ingrediente extremamente agradável.

Apesar de vez ou outra conter nas faixas alguns músicos a mais (dentre eles, James Taylor nos violões), Blue é basicamente a voz de Joni Mitchell acompanhada por seu piano, violão ou às vezes um instrumento chamado dulcimer. O disco é essencialmente folk, mas nota-se também uma pitada de jazz nas estruturas musicais, detalhe que culminaria anos depois em álbuns com forte sonoridade fusion, como o Hejira, de 1976.

Faixas

O disco começa com “All I Want”, perfeita para um início. Aqueles acordes de dulcimer misturados com a melodia entram na cabeça e custam a sair. A música, que como sugere o título trata de anseios pessoais, também parece ser um relato de alguém buscando uma identidade.

Depois vem a ingênua “My Old Man”. Apoiada pelo piano, Mitchell fala dubiamente sobre seu antigo relacionamento com Graham Nash, de modo que os versos exaltam os momentos em que ele esteve presente e o estribilho cai para o vazio de estar sozinha.

Sabe-se que “Little Green” foi composta em 1967, portanto fica sendo provavelmente a canção mais antiga do álbum. Mesmo estando um pouco distante das demais composições em relação a tempo, a música, a mais folk dentre todas, se encaixou perfeitamente à atmosfera de Blue. Por outro lado, “Little Green” contém a letra mais subjetiva do disco, que permite diferentes interpretações.

Já em “Carey” Mitchell está acompanhada de uma banda acústica e vocais fazem harmonias, a alegria dá as caras no tom desta faixa com jeito de road movie. “Carey” fala sobre despedidas de maneira leve. É evidente nesta composição a influência de suas férias na Europa quando ela canta: “Maybe I'll go to Amsterdam, or maybe I'll go to Rome”.

“Blue, songs are like tattoos”. Essa frase justifica toda a densidade do disco. O tal Blue que ela cita é David Blue, um expoente compositor de música folk da cena de Greenwich Village, em Nova Iorque. A canção pode ser interpretada como um ponto de vista da desesperança que assolou grande parte daquela geração no pós-hippie. Piano e voz fecha o lado A.

A honesta “California” talvez seja a melhor canção sobre esse estado norte-americano. Segue a linha nostálgica e road de “Carey”, além da banda acústica que a acompanha e o tom levemente descontraído.  

A batida com afinação aberta de “This Flight Tonight” lembra bastante o que ela vinha fazendo anteriormente em sua carreira, como no hit “Big Yellow Taxi”. Dá a impressão de que esta seja a faixa mais descompromissada de Blue, o que dá uma sensação de respiro entre toda a emoção das demais músicas. Curiosamente, o grupo escocês Nazareth regravou alguns anos mais tarde “This Flight Tonight” de modo completamente distinto, versão que vale a pena ser conferida.

A partir de “River”, chegamos à parte mais dolorosa de Blue. “River” é atemporal, sua melodia é irresistível e funcionaria para qualquer época após seu lançamento. Dizem que nesta faixa, Joni Mitchell quis abordar sobre seu desconforto com o sucesso e a vontade de querer escapar da fama.

A preferida de muita gente, “A Case of You” permanece sendo um dos maiores clássicos da carreira de Mitchell. Regravada por uma série de cantores como Prince, Tori Amos e James Taylor (que participou das gravações), a música é explicitamente voltada para seu relacionamento com Graham Nash e escancara a habilidade da compositora em escrever letras capazes de proporcionar ao público uma identificação imediata com algum momento da vida.  

Blue encerra com a melhor performance de Joni Mitchell no álbum. “The Last Time I Saw Richard” é a mais difícil de escutar, é preciso passar por todas as outras para chegar a esta obra-prima e assimilá-la bem. Sua letra corrida, novamente acompanhada apenas por piano e voz, parece ser sobre alguém caindo na real e tendo que mudar de postura para encontrar a felicidade. É bem claro que tudo foi feito para si mesma.

Repercussão e legado

Blue foi um grande sucesso de crítica e público, chegando a vender mais de um milhão de cópias. Nas paradas de sucesso, Blue alcançou o 15º lugar na Billboard e o 3º nas paradas inglesas. “Carey” foi selecionada para ser o single de promoção.

Muitas vezes, o álbum é citado como um dos melhores de todos os tempos, como na lista de 2003 da Rolling Stone dos melhores discos, obtendo a 30ª posição. Recentemente, a revista fez outra lista, desta vez com os 50 melhores álbuns femininos da história da música, e Blue ficou em 2º lugar.

Muitos afirmam que por ser delicado demais é um LP mais voltado para o público feminino. Pura bobagem. Blue se encaixa perfeitamente com qualquer apreciador do bom folk, pop rock ou para qualquer um disposto a se emocionar com música que não morre com o tempo.

Ficha técnica

Blue

Lançamento em 22 de junho de 1971

Selo: Reprise

Lado A
1. "All I Want" – 3:32
2. "My Old Man" – 3:33
3. "Little Green" – 3:25
4. "Carey" – 3:00
5. "Blue" – 3:00

Lado B
1. "California" – 3:48
2. "This Flight Tonight" – 2:50
3. "River" – 4:00
4. "A Case of You" – 4:20
5. "The Last Time I Saw Richard" – 4:13

Joni Mitchell – dulcimer, violão, piano e vocais
Stephen Stills – baixo e violão em "Carey"
James Taylor – violão em "California", "All I Want" e "A Case of You"
Sneaky Pete Kleinow – pedal steel em "California" e "This Flight Tonight"
Russ Kunkel – bateria em "California", "Carey" e "A Case of You"

Engenheiro de som – Henry Lewy
Direção de arte – Gary Burden
Capa – Tim Considine

domingo, 17 de junho de 2012

“Dançando Conforme a Música”, estreia de Mario Rossi

Com esta crescente onda de one-man band por conta da tecnologia, muito do que se escuta desse tipo de artista autônomo são sons mais experimentais, híbridos, que só ganhariam vida de fato por meio de apenas uma cabeça comandando tudo. Mas Dançando Conforme a Música certamente segue na contramão disso.

Acima de tudo, pode-se dizer que este primeiro álbum de Mario Rossi é um registro cuidadoso, pois apesar de ter feito o que lhe deu na telha, das composições à produção, Rossi teve muita cautela ao valorizar a espontaneidade rústica do rock ‘n’ roll e do blues, detalhe que não é fácil de obter sozinho, sem uma banda de apoio.

Ao longo de mais ou menos um ano, Mario se dedicou a este projeto solitário de compor e gravar todos os instrumentos. Apenas em alguns poucos momentos há a participação de mais alguém nas faixas.

“Busquei fazer o que gosto de ouvir nos clássicos. O disco foi acontecendo naturalmente. Não me prendi na ideia de soar atual”, comenta o músico. “Além disso, fui muito criterioso com tudo. Valorizei a música e a simplicidade na composição, das letras aos riffs de guitarra. Já na gravação, valorizei o instrumental despretensioso, natural e sem emendas – como todo disco de blues e rock ‘n’ roll deve ser”, ressalta.

Dançando Conforme a Música é uma costura meticulosa de referências que pouco se encontra no atual rock. Nas faixas pode ser percebida a influência direta de bandas como The Rolling Stones, The Faces e Derek and The Dominos. “Também sou grande fã do rock nacional. Tutti Frutti, Barão Vermelho, Ultraje a Rigor, Raul Seixas etc. O disco tem todas essas referências”.

O álbum é sóbrio e divertido, um exemplo de como deve se construir um rock básico, orgânico e de fácil audição. Há equilíbrio na sonoridade, de forma que a crueza do álbum passa longe do saudosismo ao mesmo tempo em que não se assemelha com o contemporâneo.

O interessante trabalho de guitarras que passeia por todo o disco flui muito bem e em sutileza e dedicação é muito acima do que se encontra atualmente. Mario não faz restrições aos improvisos quando necessário e ao mesmo tempo não apela para um peso sem sentido. As sólidas bases de baixo e bateria, assim como as melodias, atingem rapidamente o ouvinte pela assimilação imediata e escancara a capacidade de Mario Rossi não só como guitarrista, mas como um músico de mão cheia e ainda com um longo caminho para explorar.

Abaixo, Mario comenta sobre as nove faixas de seu álbum de estreia:

“Tudo tem seu Preço”
“Essa eu fiz no final de 2008, melhor dizer que surgiu, pois em uns dez minutos a composição estava pronta. A letra é um ponto de vista bem parcial sobre ação e reação, em pensamento e atitude”.

“Mesmo Distante”
“É a mais pop do álbum, mas embora tenha uma melodia mais comercial, fiz questão de deixá-la soando setentista o máximo que pudesse, como naquelas gravações ao vivo. Os hits dos álbuns do Peter Frampton foram grandes influências pra essa música em todos os sentidos”.

“Dançando Conforme a Música”
“Eu tinha a letra praticamente toda pronta e o riff de guitarra. Não era o título inicial do álbum, mas como tudo foi acontecendo naturalmente, encaixou perfeitamente. Ela fala por sí. De uns tempos pra cá me dei conta que mudei nesse aspecto, digo, não temos controle das coisas, parei de planejar demais isso ou aquilo, então me dou por feliz em acordar e ter um bom som de blues pra ouvir”.

“Quem me Escuta”
“Essa é um lado B do Barão Vermelho, uma música bem legal. A primeira vez que ouvi já tive vontade de tocá-la nessa pegada mais cadenciada. O Frejat me autorizou de primeira, fiquei muito feliz com isso. Há aquele trecho na letra, que é: ‘Eu tenho um plano e não canso de correr atrás, e essa espera tira a minha paz’. Claro que contraria o assunto de "Dançando Conforme a Música", mas essa contradição acabou caindo bem”.

“Surreal”
"Uma das que mais gosto. Ela relata um amor platônico, mas de forma descontraída, sem sofrimento. A melodia e a parte instrumental são bem contagiantes, o que colabora pra essa qualidade. Os solos dividos de guitarra e piano dão aquele ar nostalgico de piano bar dos anos 1950, tipo aquele som das esquinas de Manhattan".

“Minha Rede Social”
"Essa fiquei em dúvida de colocar no álbum. Primeiro porque não sou fã dessas coisas de internet. Embora use, mas para contatos e o necessário somente. Enfim, ela poderia quebrar o contexto do restante do álbum por ser uma letra muito atual,  temporal demais. É sobre esses casos de mudança de comportamento no mundo virtual, essa coisa de autopromoção, guerra de egos etc."

“Romance Indefinido”
"Foi a que deu mais trabalho. Primeiro surgiu o riff, eu adorei, tinha que fazer alguma coisa com ele. Eu tinha mais ou menos esse tema em uma ideia de letra e depois surgiu o estribilho. Levou um tempo pra adaptar letra e melodia".

“Ela Era só uma Garota Querendo Aprovação do Mundo”
"Blues nu e cru. Essa tambem é sobre comportamento. Foi inteira composta durante as gravações. Notava isso em uma garota em especial, tipo aquela coisa ‘acharam isso ou aquilo de mim’. Mas tem muito de outras pessoas que eu incluí tambem. Enfim, é aquela coisa básica de viver de aparência e não de essência, pose por status".

“Novos Ares”
"Outro riff que surgiu pra mim. Maravilhoso! Preferi deixar só voz e violão. Foi gravada ao vivo, da melhor forma. Dois takes e pronto. A letra é bem simples e introspectiva, é sobre aquela parte nossa que morre todo dia e nasce outra de acordo com experiências, aprendizados, mudanças".

O álbum está disponível na íntegra no site oficial de Mario Rossi: http://www.mariorossi.com.br/.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Lima Barreto - “Os Bruzundangas” (1923)


Se hoje fosse publicado Os Bruzundangas, aposto que em muitos aspectos a obra não estaria fora de contexto. Mesmo depois de muito tempo, este livro de Lima Barreto (1881-1922) ainda carrega a mesma força no sentido de denúncia, mesmo que nele permeie um modo mais leve de relatar temas negativos, se comparado com outros trabalhos mais recentes e de conteúdo similar.

Publicado postumamente em 1923, Os Bruzundangas é um conjunto de crônicas sobre um país fictício, a República dos Estados Unidos da Bruzundanga. Esta nação hipotética contém basicamente os mesmos problemas encontrados no Brasil, e é nesse aspecto satírico que o autor se apega para condenar os problemas sociais, o que é uma característica muito presente em toda a obra de Lima Barreto. O termo ‘bruzundanga’ é um substantivo feminino que pode significar ‘burundanga’, que é o mesmo que ‘palavreado confuso’, ‘mistura de coisas imprestáveis’, ‘mixórdia’, ‘trapalhada’ ou ‘embrulhada’.


O livro é um diário de viagem de um brasileiro que morou por uns tempos naquele país e conheceu de perto os principais pormenores.  Ao longo dos capítulos, Barreto discorre sobre vários assuntos, dentre eles, a Constituição, a indústria, o nepotismo, o favorecimento aos políticos, a má educação, o setor defasado da saúde, a imprensa, além dos costumes do povo e da cultura (música, teatro, literatura etc.)

A maneira como ele aborda os problemas ainda é estritamente válida, fácil de ser adaptada para a nossa realidade. Além disso, o livro não se torna cansativo como alguns clássicos do mesmo período, tem pouco mais de 150 páginas e é capaz de conquistar o leitor menos acostumado com o estilo da época.

Mesmo com todo o humor e elegância, é bastante clara a denúncia para qualquer um que lê-lo, a crítica é incisiva. Para exemplificar, segue abaixo um trecho do sexto capítulo, “O Ensino na Bruzundanga”:

(...) Há casos tão escandalosos que, só em contá-los, metem dó.

Passando assim pelo que nós chamamos preparatórios, os futuros diretores da República dos Estados Unidos da Bruzundanga acabam os cursos mais ignorantes e presunçosos do que quando para lá entraram. São esses tais que berram: “Sou formado! Está falando com um homem formado!”

Ou senão quando alguém lhe diz:

- Fulano é inteligente, ilustrado...”, acode o homenzinho logo:

- É formado?

- Não.

-Ahn! 

Nesse sentido de romance social, o autor, que também publicou Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), é tido como o pioneiro no Brasil, e ao mesmo tempo como o crítico mais ferrenho da República Velha na esfera artística.


Segundo o próprio Lima Barreto, ele se enquadrava num segmento denominado ‘literatura militante’, e dizia que tinha como objetivo fazer comunicar umas almas com as outras para reforçar a solidariedade humana, tornando os homens capazes de se entenderem melhor. E é fácil notar essa mensagem em Os Bruzundangas, afinal, basta rememorar o retrato brasileiro daquele período e seus respectivos personagens e compará-los com os personagens da obra. São caricaturas explícitas.

Vale a pena lê-lo por muitos motivos, mas, repito, compará-lo com os dias atuais e enxergar uma série de semelhanças esdrúxulas é o aspecto mais irresistível. Parece praga, da boa e da ruim.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

“O Terceiro Tiro” (1955)



É curioso o fato de todos os filmes de Alfred Hitchcock serem agradáveis mesmo com a persistência do sórdido.

Certa vez me disseram que assistir a qualquer trabalho dele é satisfação na certa. E é mesmo. Sua filmografia é um raro caso de comprometimento que não consigo comparar com a carreira de nenhum outro diretor. Digo isso por que o homem insistiu tanto no suspense que sua imagem dificilmente consegue se desvincular do gênero, mesmo quando faz comédia. E esse é o caso de O Terceiro Tiro (1955), um dos filmes mais peculiares de Hitchcock.


Nesta produção, originalmente intitulada The Trouble with Harry, o diretor mostra que a morte é capaz de ser divertida. O filme gira em torno de Harry, um defunto caído em uma floresta, com uma marca arredondada de sangue na testa. Alguns moradores do local acabam se deparando com o cadáver e ao mesmo tempo todos eles sentem uma parcela de culpa, pois não conseguem de fato chegar à conclusão de quem o matou. Essa indecisão se transforma na cumplicidade entre cinco personagens, que pretendem esconder a morte de Harry da polícia.

Há muitos pontos que podem ser destacados em O Terceiro Tiro, mas o que mais chama atenção é a leveza que o filme transpassa.

Os diálogos são leves, carregados do senso de humor britânico. O próprio Hitchcock certa vez mencionou que o filme contém alguns de seus diálogos favoritos dentre todos os filmes que ele fez. O romance entre Sam Marlowe (John Forsythe) e Jennifer Rogers (Shirley MacLaine, em seu primeiro papel no cinema) também é leve e ingênuo, bem diferente da provocação sensual presente em Um Corpo que Cai (1958), por exemplo. Há também o flerte entre o capitão Albert Wiles (Edmund Gwenn) e a solteirona Ivy Gravely (Mildred Natwick), que acaba rendendo atuações hilariantes. O garoto Arnie Rogers (Jerry Mathers), filho de Jennifer, também contribui para a comédia com sua natureza de pentelho.


A fotografia de autoria de Robert Burks é um caso à parte, é belíssima. Os tons alaranjados do outono de Vermont, nos EUA, transmite uma sensação de conforto como em nenhum outro longa-metragem de Hitchcock. Mesmo nas tomadas internas, Vermont está bastante presente. O filme apresenta cores vivas por toda sua extensão. Outro ponto crucial é a trilha sonora. A música principal soa tão adequada ao estilo de Hitchcock que anos depois, Bernard Herrmann, autor da trilha, utilizou trechos da peça musical para compor uma suíte em homenagem ao diretor.   

Curiosamente, O Terceiro Tiro fracassou nos EUA. Muito se justifica pelo fato de o humor negro predominante na produção ser absolutamente britânico, o que não agradou ao público. Já na França, por exemplo, o filme ficou em cartaz por mais de um ano, assim como na Inglaterra.

Com o passar dos anos, O Terceiro Tiro foi ganhando o devido reconhecimento. Atualmente, é comum ouvir pessoas admiradoras do mestre do suspense citarem este como um dos melhores filmes dele. Até o próprio Hitchcock afirmou que este era um de seus trabalhos favoritos. Vale a pena tirar sua própria conclusão.


Assista ao trailer neste link.


Ficha técnica 

Título original: The Trouble with Harry
Ano de lançamento: 1955
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: Alfred Hitchcock, Herbert Coleman,
Roteiro: John Michael Hayes, baseado no romance de Jack Trevor Story
Duração: 99 minutos
Elenco: John Forsythe (Sam), Edmund Glenn (Capitão Albert), Mildred Natwick (Sra. Gravely), Shirley McLaine (Jennifer), Jerry Mathers (Arnie)

Por: Victor José

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Pop Barroco

Se a música radiofônica da segunda metade do século XX – sobretudo o Rock – passou a ser mais inventiva e ao mesmo tempo levada mais a sério, deve-se muito a uma vertente denominada Pop Barroco.

Este estilo emergiu em meados dos anos 1960, quando produtores e compositores beberam da fonte da música erudita e trouxeram ao Rock ‘n’ Roll elementos orquestrais. O resultado foi provavelmente a primeira amostra de que um som feito basicamente pra adolescentes poderia soar mais rico e intenso. 

Competição criativa

Pode-se dizer que um dos alicerces do Pop Barroco é a canção “Be My Baby”, interpretada pelo grupo feminino The Ronettes e composto, produzido e arranjado por Phil Spector. Lançado em 1963, o sucesso apresentava uma sonoridade diferenciada por conta da chamada Wall of Sound, técnica de gravação desenvolvida por Spector. O segredo consistia em juntar no estúdio uma infinidade de músicos (algo exagerado como quatro guitarristas, dois baixistas, dois bateristas, piano, órgão, conjunto de cordas etc.) pra tocarem ao vivo a canção, sem edições. O efeito final era uma massa sonora que soava mais vigorosa do que as demais músicas do rádio.

E foi esse jeito peculiar de gravar, essa mistura de ingredientes inusitados no Rock que fez a cabeça de Brian Wilson, então baixista, produtor e compositor do The Beach Boys. A banda foi mudando gradativamente de direção estética. No single “When I Grow Up (To Be A Man)”, de 1964, nota-se a busca de Wilson por novas sonoridades pelo uso de um cravo. Nos álbuns posteriores, The Beach Boys Today! e Summer Days (And Summer Nights), a sofisticação vai ganhando mais corpo e a genialidade de Wilson começa a dar as caras.

Enquanto isso, os Beatles também começaram a alargar suas próprias fronteiras. Em Help! (1965) já havia um presságio de novos tempos com “Yesterday”, nitidamente mais madura que qualquer outra canção gravada pelo quarteto anteriormente. Mas no mesmo ano é lançado o LP Rubber Soul, este sim com um grupo realmente mais complexo e ousado. Somente a cítara de George Harrison em “Norwegian Wood” (instrumento até então nunca usado no Rock) já seria um bom motivo pra considerar Rubber Soul criativo e pioneiro em alguma coisa, mas Brian Wilson – de novo ele – enxergou ali algo ainda maior e absorveu o trabalho dos ingleses como um desafio, sentiu a necessidade de superá-los com algo ainda mais denso. E foi aí que veio Pet Sounds (1966) e o começo de uma batalha artística que renderia alguns dos maiores clássicos do Rock.

Brian Wilson parou de excursionar com o The Beach Boys. Com isso passou a se dedicar somente às composições e gravações enquanto o restante do grupo tocava pelo mundo. Pet Sounds somou mais de cinco meses de trabalho liderado por Wilson, que conseguiu captar o espírito juvenil e ao mesmo tempo uma sonoridade riquíssima em detalhes. Utilizando tudo o que fosse possível (de violoncelos e vibrafones a buzinas de bicicleta), o álbum é uma obra de arte sem precedentes. “God Only Knows” é considerada por muitos – incluindo Paul McCartney – como a melhor canção Pop de todos os tempos.

Os Beatles também vinham se dedicando mais às gravações do que às apresentações, tanto que, em 1966 anunciaram que passariam a trabalhar somente em estúdio. Esta atitude somou frutos que viriam a ser considerados os pontos altos da carreira do grupo, dentre eles, o LP Revolver, do mesmo ano, e Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band, de 1967. Neste período a banda ditou as regras da cultura Pop, e “Strawberry Fields Forever”, “Penny Lane”, “Eleanor Rigby” e “A Day in The Life”, que traziam a abordagem do Pop Barroco, se transformaram em referência do que podia se considerar moderno na música.

Brian Wilson bem que tentou fazer algo num nível ainda acima, mas sucumbiu às drogas e à loucura. Começou a gravar o LP Smile em 1967, mas abandonou o projeto, que só viria a ser lançado em 2004 como projeto solo. Em 2011, para comemorar os 50 anos dos Beach Boys, saiu o Smile Sessions, com gravações da época. .

Contemporâneos

Houve uma infinidade de grupos seguindo essa tendência no período dos anos 1960, medalhões como os Rolling Stones, por exemplo. Apesar da sonoridade calcada no Blues dos primeiros álbuns, a banda investiu em alguns momentos no Pop Barroco. Apesar de o flerte com o erudito não ter perdurado, “Lady Jane”, “Ruby Tuesday” e “She’s a Rainbow” são músicas importantes para o subgênero.

O The Left Blanke, de Nova Iorque, também foi um expoente crucial pra concepção do estilo. O compositor e tecladista da banda, Michael Brown, foi muitas vezes comparado a Lennon, McCartney e Wilson por conta de seu talento em fazer melodias sofisticadas e da ambição de introduzir elementos mais sérios na música Pop. Muita gente considera o primeiro álbum, Walk Away Reneé/Pretty Ballerina (1966), como o exemplo mais bem acabado da fusão do Pop com o erudito.   

Bandas como The Zombies aprimoraram o estilo seguindo os passos de Pet Sounds e Sgt. Peppers. O grupo britânico estava pra se desfazer quando juntou os cacos e fez um LP emblemático. Odessey and Oracle (1968), foi preparado sem a pressão da gravadora por algum sucesso, detalhe que acabou sendo resolvido naturalmente, pois “Time of The Season” agradou ao público em geral. Dada essa liberdade, o grupo pode abusar o quanto quisesse do experimentalismo, e o resultado foi um disco aclamado pela crítica até hoje. Odessey and Oracle, por fim, selou a dissolução do The Zombies, que foi coincidentemente seu momento mais prolífero.

Um caso similar à situação do The Zombies e que também deu bastante certo foi terceiro disco do grupo norte-americano Love. A banda liderada por Arthur Lee já havia conseguido algum sucesso na cena com o álbum Da Capo (1966), mas Forever Changes (1967) a música atinge outro patamar. O Love passava por um período de brigas internas e ameaças de dissoluções. Lee, que depois de uma viagem de LSD previu sua morte, estava determinado em deixar suas últimas palavras em vida (daí o título Forever Changes), e estimulou o grupo a gravar o álbum. São onze músicas coesas, impecáveis. Pode-se dizer que “Andmoreagain”, “You Set The Scene” e “Alone Again Or” são sinônimos de Pop Barroco. Os arranjos de cordas e metais permeiam quase todo o LP e complementam a banda de modo tão satisfatório que não dá pra separar uma coisa da outra.    

No decorrer dos anos, uma infinidade de artistas buscaram fazer esse contrapeso do moderno com o clássico: Moody Blues, Serge Gainsbourg, Pink Floyd, Scott Walker, Nico, Nick Drake, The Hollies, Sagittarius, The Free Design, Simon & Garfunkel...

No Brasil

Em 1966, o The Jordans, grupo instrumental brasileiro, gravou “Tema de Lara”, do filme Doutor Jivago, com arranjos arrojados em comparação com o conceito do Rock brasileiro. Um ano depois, a banda tocou na Europa, absorveu as influências e na volta gravaram “Walk Away”, do The Left Blanke, que em português ficou “Alguém Chorou”.

Por aqui, o estilo foi um forte aliado ao som dos Tropicalistas. A influência de Sgt. Peppers no LP coletivo Tropicália ou Panis et Circesis (1968) está escancarada, basta conferir “Baby” e “Enquanto Seu Lobo Não Vem”. O nome por trás disso é Rogério Duprat, maestro arranjador que trabalhou com a maioria dos artistas do movimento e aproximou um pouco mais os brasileiros das tendências internacionais. Dentre os Tropicalistas, os Mutantes se destaca como o grupo mais fincado nessa proposta orquestral, principalmente nos seus três primeiros trabalhos de estúdio.

Até Ronnie Von, antes mero galã das garotinhas, lançou em 1969 um emblemático álbum homônimo com excelentes canções de Pop Barroco, que na época foi mal compreendido pelo seu público acostumado com canções fáceis.

Legado

Dá pra dizer com tranquilidade que muitos subgêneros não existiriam sem o Pop Barroco. Sua importância está intacta e perdura até hoje por meio de uma porção de filhos e netos bem sucedidos, dentre eles, figuras do Rock Sinfônico como Yes e ELP, o chamado Art Rock do Queen em A Night at The Opera (1975), a Neopsicodelia do Echo & The Bunnymen em Ocean Rain (1984), o Rock alternativo do Smashing Pumpkins, Arcade Fire e The Last Shadow Puppets. É muita coisa. É quase impossível vislumbrar o Pop sem 1966 e 1967.

Para entender o Pop Barroco, recomendo escutar as seguintes músicas:

“Pretty Ballerina” – The Left Blanke
“Still You Believe in Me” – The Beach Boys
“Out Of Time” – The Rolling Stones
“A Rose For Emily” – The Zombies
“It’s Raining Today” – Scott Walker
“For No One” – The Beatles
“Fly” – Nick Drake

Por: Victor José

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Henry Miller: “Sexus”, “Plexus” e “Nexus”


De tudo que li até hoje, não me lembro de nenhum autor mais honesto que Henry Miller (1991 -1980). Tinha a escrita solta e não se apegava a enredos.

Influência direta da geração Beat e de grande parte da literatura contemporânea, sua prosa era rica e bem estruturada à sua maneira. Por dispensar a prudência em relação às palavras, Miller muitas vezes abusou dos limites estipulados na época, sendo taxado como “escritor maldito” e seus trabalhos considerados degradantes por conter muitas vezes obscenidades e passagens sexualmente explícitas.

É injusto lembrar de Miller basicamente como um pornográfico desbocado. Apesar dessa estigma que o acompanhou pra sempre, ele tinha com a mesma intensidade e excelência a característica de ser livre e parecer capaz de tratar sobre qualquer anseio humano. Nas palavras do próprio: “A literatura moderna sofre precisamente porque os escritores se abstêm de nos oferecer o homem em todas as grandezas e baixezas de seu ser. E o público, já muito habituado a esse tipo de amputação prescrita, perdeu o interesse maior. Na realidade, pouca revolta de qualquer espécie é permitida ao homem moderno”.


Adotando predominantemente o recurso da autobiografia embaralhada com ficção, Henry Miller insistia nessa fórmula de constante libertação. Ao longo dos anos, o livro Trópico de Câncer (1934) foi apontado pela crítica como o exemplo mais contundente de sua bibliografia, mas é em Sexus (1949), Plexus (1953) e Nexus (1959) que ele atinge o ápice da elaboração na crueza de seu estilo.

A Crucificação Encarnada – assim é chamada a trilogia – é um monumento literário de mais de 1.300 páginas. Nele, o autor conta sua vida na Nova Iorque dos anos 1920 e 1930. A cena boêmia de Brooklin, seus perrengues financeiros, suas aventuras sexuais, pessoas das mais distintas personalidades e a transformação de alguém sem perspectivas chegando gradativamente ao posto de promissor escritor. Tudo é real no sentido mais profundo, e o charme está no fato de Miller contar sua peculiar trajetória do modo mais correto: sem maquiar os próprios sentimentos, se abrindo completamente.

No prefácio de Plexus, Henry elucida bem o que a trilogia aborda: “Através da crucificação uma pessoa pode ser ressuscitada... ou ‘transformada’, se preferirem assim. Minha ideia, muito simples, foi a de contar, sem pensar no número de páginas, a história do período mais pungente de minha vida, a saber, os sete anos antes de minha fuga voluntária para a França. Parte considerável da narrativa refere-se à luta que travei para me expressar em palavras – eu comecei tarde! –, às dificuldades para ganhar a vida, à luta com o meu próprio ser complexo, aos encontros com outros homens e mulheres na condição de ‘errante facínora cultural’, e assim por diante. E mais do que tudo, talvez, ao meu esforço para compreender o esquema de minha vida, seu propósito e sua significação”.     

Sexus chega a chocar quem não está acostumado com esse tipo de literatura. Neste livro contém as primeiras manifestações de um bon vivant notável. Miller está pra fazer trinta e três anos, mantém um frio casamento com sua esposa Maude e trabalha em uma companhia de telégrafos enquanto sonha em ser escritor. Ao mesmo tempo em que se apaixona perdidamente pela dançarina Mona (June Miller na vida real, foto abaixo), Henry experimenta fugir da estabilidade que não o faz progredir e vai alimentando essa ruptura a cada capítulo percorrido. Se envolve com artistas, pirados e boêmios, passa a viver com a dançarina, deixando Maude com a filha pequena. Somado a tudo isso, há o sexo, detalhe que o acompanha em todo o livro. Vale ressaltar que quando não há transas e passagens eróticas, há o contrapeso de uma enxurrada de reflexões existenciais, monólogos filosóficos a respeito dos mais diversos assuntos. São várias as passagens em que Miller beira a pornografia, mas definitivamente Sexus supera qualquer preconceito literário caso o leitor seja atento o suficiente à sensibilidades.    

Quando se chega a Plexus, encontramos o protagonista já imerso nessa vida, com Mona sendo sua cúmplice. Nesse ponto, o narrador está buscando meios de se encontrar na escrita e ao mesmo tempo procura se virar com seu modo nada ortodóxo de viver sem as convencionalidades de um emprego estável. Dentro de Plexus está uma extensão ainda maior da personalidade de Miller. As reflexões e divagações são ainda mais frequentes. Às vezes torna-se cansativo, mas ao mesmo tempo pode ser definido como a base da trilogia. Liga Sexus a Nexus como se fosse a fase adulta de uma vida dentro de outra vida.

No caso de Nexus, a perambulação novaiorquina atinge a maturidade. Há também o relacionamento abalado com Mona, que agora se envolve com Anastasia e juntas vão à França, deixando Henry na mão. Neste último volume da trilogia, há mais densidade na descrição dos sentimentos e nas ideias compartilhadas pelo autor. É como se Nexus realmente representasse a conclusão de toda uma história, o que é verdade somente em parte. Em Trópico de Câncer encontramos o mesmo Henry, novamente deslumbrado como em Sexus, porém se aventurando em Paris.

Assim como ocorreu com alguns outros títulos de sua autoria, a trilogia foi proibida em uma série de países, incluindo o Brasil, por julgarem a liguagem abusiva e o conteúdo “imoral”. Muitos artistas, intelectuais e apreciadores sairam em defesa Henry Miller, e na década de 1960 todos os livros foram finalmente liberados.

Henry Miller tornou-se notável referência pra literatura feita até então. Desde o início de sua trajetória com as letras, sempre foi elogiado por alguns de seus contemporâneos, como Ezra Pound, Anaïs Nin – com quem se envolveu durante sua temporada na França – e George Orwell, que na década de 1940 chegou a afirmar que Henry era o único excelente escritor de prosa imaginativa que havia aparecido na língua inglesa naqueles últimos anos.

Ao longo do tempo, pode-se perceber a presença de Miller em parte da literatura mundial, sobretudo na arte norte-americana que veio sendo desenvolvida a partir de meados da década de 1940. Allen Ginsberg, William S. Burroughs, Charles Bukowski, Thomas Pynchon… Na verdade, Henry Miller é um gênio que continuará sendo reverenciado enquanto houver pessoas interessadas na complexidade dos desejos e no que de fato é um ser humano desprendido.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

"O Inquilino" (1976)

Acho que poucas vezes li um romance e assisti ao filme derivado do livro, menos ainda me surpreendi com o resultado das adaptações, o que é normal. Existe uma resistência do público em relação a isso, e normalmente os argumentos são compreensíveis. Às vezes é porque o longa-metragem não traz a profundidade do livro, outras por conta dos personagens que pouco se parecem com o original, ou pela carência de detalhes importantes que acabaram sendo deixados de lado, enfim...

De fato existem filmes que depois de assistidos quase estragam o charme do livro pra quem ainda não leu, ou quem leu o livro acaba dando uma de purista abominando o filme de tal maneira que ele acaba parecendo pior do que realmente é. Uso como exemplos as fracas versões cinematográficas de Pergunte ao Pó (2006) ou Trópico de Câncer (1970), indo mais pro popular, temos O Código Da Vinci (2006), que murchou o entusiasmo de muita gente. Mas este não é o caso de O Inquilino, de Roman Polanski. Lançado em 1976, o terceiro daquilo que é chamado por alguns de “Trilogia do Apartamento” – os outros são Repulsa ao Sexo (1965) e O Bebê de Rosemary (1968) – é um raro caso em que a película supera a matriz literária.

A obra original é do francês Roland Topor, que além de escritor também foi pintor e ator. Lançada em 1964, a novela alcançou grande sucesso comercial no mundo todo, sendo traduzida para diversos idiomas. Aqui no Brasil, a publicação ficou por conta da Editora Record.

Em relação à adaptação cinematográfica, pode-se dizer que é bem difícil passar por ela indiferente, goste ou não. E quem se interessa por suspense psicológico ou por personagens ambíguos e imprevisíveis, provavelmente assistirá mais de uma vez.

Em O Inquilino, Polanski é Trelkovsky, um polonês que vive na França. Em um antigo edifício cheio de idosos reclusos e excessivamente intolerantes, ele aluga um pequeno apartamento no qual a última inquilina, Simone Choule, cometera suicídio ao pular da janela.

A inimizade dos vizinhos, o aparente sarcasmo dos colegas de trabalho, a sensação de estar sendo vigiado, o problema de adaptação e mais uma série de incidentes relacionados à Simone – como o envolvimento com uma das amigas dela e a descoberta de um dos dentes da morta escondido em um buraco na parede do apartamento – faz com que lentamente cresça em Trelkovsky um sentimento de alienação que posteriormente se transforma em obsessão. Quando a obsessão vira paranoia, ele logo se convence de que seus vizinhos planejam transformá-lo em Simone, passando assim a demonstrar comportamentos de dupla personalidade e é aí onde tudo começa a ficar mais alegórico. Aversão, reflexões existenciais, raiva, androginia, delírios de perseguição. Contar mais estragaria.

Somente a atuação de Polanski já seria um bom motivo pra assistir, mas a trivialidade do enredo, a atmosfera pitoresca que envolve todo o filme, a trilha sonora e algumas sequências em que o protagonista sofre com alucinações somam um resultado assombroso.

Não só Polanski arrebata o espectador, mas sim todo o elenco, que é espetacular no sentido de acrescentar sutilezas. Cada personagem tem uma função definitiva pra nos estimular diversas sensações. As poucas vezes que Simone aparece em cena são pra causar as maiores tensões. Por exemplo, aquele grito horroroso logo nos primeiros dez minutos, que é um dos melhores exemplos que eu já vi de como um filme pode causar um medo dos infernos sem recursos mirabolantes. O proprietário do edifício, Monsieur Zy, e a senhora porteira – representados por Melvyn Douglas e Shelley Winters, respectivamente – nos transmitem diretamente aquele sentimento de perseguição comum por vizinhos bisbilhoteiros e inflexíveis. É como se o inquilino fosse o espectador o tempo todo.

Já Stella (Isabelle Adjani), amiga de Simone que se envolve com o protagonista, destoa um pouco do tom mórbido de todo o resto com sua beleza e um quê de compaixão, o que vez ou outra chega a aliviar. Os colegas de trabalho de Trelkovsky, por deixá-lo ainda mais tenso ao longo do filme, nos fazem compartilhar da mesma tensão. É engraçado como é fácil se envolver em histórias quando elas começam banais.   

Polanski é esperto, não apela. Vai cozinhando a fogo baixo, deixa a gente saborear o medo, depois conclui confundindo o espectador com algo chocante, o que torna o filme ainda mais especial. Certa vez li uma entrevista em que ele dizia que o fim de um longa-metragem nunca pode ser óbvio, senão logo na hora do jantar as pessoas estarão pensando em outra coisa. E nisso ele é mestre, basta lembrar de Chinatown (1974) ou o já citado Bebê de Rosemary.

Agora, rememorando a novela de Roland Topor, posso concluir que é uma obra que naturalmente atrai a atenção daqueles que curtem o gênero suspense, mas é um bom livro de entretenimento e só. Gostaria de ter lido antes de assistir ao filme, talvez agora eu pensasse diferente.

Por outro lado, certamente a adaptação para o cinema não comprometeu a versão literária, pelo contrário, Polanski deu mais vida à simples – não no sentido de banalidade – escrita de Topor. Intrincou a trama com imagens fortes, elevou a história do alienado e isolado Trelkovsky a status de grande obra de arte sem abrir mão da fidelidade ao best-seller lançado doze anos antes.

O filme está disponível na íntegra no You Tube, sem legendas.

Ficha

Título: Le Locataire
De Roman Polanski, França, 1976
Elenco: Roman Polanski (Trelkovsky), Isabelle Adjani (Stella), Shelley Winters (a Concièrge), Melvyn Douglas (Mr. Zy), Jo Van Fleet (Mme. Dioz), Bernard Fresson  (Scope), Lila Kedrova (Mme. Gaderian), Claude Dauphin, Claude Pieplu, Rufus, Romain Bouteille, Jacques Monod, Josiane Balasko
Roteiro: Roman Polanski e Gérard Brach
Baseado na novela Le Locataire Chimerique, de Roland Topor
Fotografia: Sven Nykvist
Música: Philippe Sarde
Produção: Alain Sarde, Marianne Productions
Cor, 125 min.

Por: Victor José

sábado, 28 de abril de 2012

O que de fato é Power Pop?

Há pouco tempo, muito se ouviu a respeito de uma vertente do Rock chamada Power Pop. O que nem todo mundo sabe é que este estilo já é bastante antigo, um tanto quanto obscuro, mas altamente influente.

De certa forma, seu significado acabou se perdendo no tempo. O verdadeiro Power Pop nada tem a ver com o chamado Power Pop que dizem que existe hoje. Por mera coincidência, utiliza-se o termo pra definir o novo ‘Rock Colorido’ que bandas como Restart e Cine andam fazendo, porém o estilo corresponde a bandas como Big Star (foto acima), The Raspberries, Flamin’ Groovies (foto abaixo) e Badfinger, expoentes da década de 1970 que mais tarde influenciariam bandas e cantores importantes como R.E.M, Teenage Fanclub (também Power Pop), Elliott Smith, Jeff Buckley, e The Replacements.

Início

Sabe-se que o termo foi utilizado pela primeira vez em 1967 por Pete Townshend, guitarrista e compositor do The Who, durante uma entrevista quando tentava definir o som que sua banda fazia: “Power Pop é o que nós tocamos, o que The Small Faces costuma tocar e é também o tipo de Pop que The Beach Boys tocou em seus dias de 'Fun, Fun, Fun', o qual eu prefiro”. Somente alguns anos depois a sonoridade do estilo seria definitivamente estabelecida.

O Power Pop pode ser caracterizado como um revival dos anos 1960 com um pouco mais de potência. Praticamente todas as bandas do estilo têm como influência as melodias e arranjos de algumas bandas mais pesadas da British Invasion dos anos 1960 (The Kinks e The Who) e também o Folk Rock americano (The Byrds e The Lovin’ Spoonful). Ao somar alguns riffs de guitarra grudentos, como “Day Tripper”, dos Beatles e “Satisfaction”, dos Rolling Stones, você tem uma banda de Power Pop.  

Bandas seminais

A primeira banda a ter alguma visibilidade com esta proposta foi o Badfinger. Canções de fácil audição repletas de harmonias vocais com um toque Beatle e de guitarras levemente distorcidas. Curiosamente, o grupo inglês contou com uma grande colaboração dos Beatles. Seu primeiro álbum, “Magic Christian Music”, de 1970, foi lançado pela Apple, selo dos Beatles, e o maior sucesso do álbum, “Come and Get It” – quarto lugar na lista de vendagem da Grã-Bretanha – foi composto por Paul McCartney. Além disso, o Badfinger participou de gravações de álbuns de George Harrison (“All Things Must Pass”, 1971), Ringo Starr (“Ringo”, 1971) e também John Lennon (“Imagine”, 1971). O Badfinger é talvez a banda mais famosa do Power Pop, e muito de seu sucesso se dá devido à música “No Matter What”, um clássico do Rock que de vez em quando toca no rádio. Chegaram a ser a banda genuinamente britânica a ter a melhor vendagem desde os Beatles.

Já a banda mais influente e que melhor sintetiza o estilo é Big Star. Surgida em Memphis (EUA), em 1970, o grupo liderado pelos compositores Alex Chilton – então ex-membro do The Box Tops – e Chris Bell fazia um som tão acessível quanto o Badfinger, mas seu selo, o Ardent Records, por ser especializado em música Soul e R&B, encontrava dificuldades ao divulgá-los, então o Big Star não fez o menor sucesso nos anos 1970. Seu primeiro álbum, “#1 Record”, de 1972, é uma pérola pouco conhecida da história do Rock, assim como seu sucessor, “Radio City”, de 1974 e já sem Chris Bell na banda, que acabou falecendo em um acidente de carro em dezembro de 1978. Este último contém o hino que define o Power Pop: “September Gurls”. Em 1975 o Big Star lançou outro álbum, desta vez mais experimental, o “3rd”, e encerrou suas atividades. Anos depois surgiram bandas como R.E.M, The Posies e Teenage Fanclub que se diziam fãs incondicionais do Big Star, o que colaborou ainda mais para a banda atingir status de lenda cult. Durante um curto período dos anos 2000, a banda retornou aos palcos e em 2005 lançou o despercebido “In Space”, e em seguida o grupo definitivamente se dissolveu. Paralelamente ao Big Star, tanto Chris Bell quanto Alex Chilton – falecido em março de 2010 – possuem carreiras solo bem aclamadas. Recentemente, foi lançado um documentário sobre a banda, intitulado “Nothing Can Hurt Me”.

Outro expoente que define bem o estilo é o grupo The Raspberries, que possui um repertório de canções consistentes, algumas bastante adocicadas, e que nos agrada na primeira audição. Também de 1970, a banda norte-americana conseguiu um relativo sucesso no início da carreira, principalmente com a música “Go All The Way”, que alcançou o quinto lugar na Billboard Hot 100, em 1972. Nas canções é possível reconhecer influências de algumas bandas britânicas antigas como The Hollies e Gerry & The Pacemakers. The Raspberries manteve uma carreira de relativo êxito até seu fim, em 1975. Seus quatro álbuns de estúdio foram bem aclamados pela crítica da época, principalmente o segundo, “Fresh”, de 1972, tido como um clássico do Power Pop. Pessoas como Bruce Springsteen, Tom Petty, Axl Rose e Paul Stanley já citaram a banda como uma influência.

Continuidade

Já nos anos 1980 e 1990, a influência exercida pelo Power Pop pode ser percebida em bandas que faziam outro estilo de Rock (vide The Romantics, The Undertones, The Replacements e o já citado R.E.M.) e também era possível revisitá-lo em novas bandas do segmento, como o The Knack, Teenage Fanclub e Cheap Trick.

O que pode ser notado em toda a trajetória do estilo é que as bandas mais famosas – com exceção do Big Star – alcançaram um sucesso isolado com algumas canções, fazendo com que suas melodias acabassem se tornando mais famosas do que os próprios grupos em si. Jamais chegaram ao patamar das grandes bandas, o que fez com que a nomeação Power Pop acabasse perdendo um significado mais abrangente. Mas para quem de fato conhece, o Power Pop é uma categoria prolífera e digna do mais alto escalão do Rock ‘n’ Roll.



Aí está uma seleção de dez músicas para entender melhor o som do Power Pop:

1-    Big Star - “September Gurls”
2-    The Raspberries - “Tonight”
3-    Badfinger - “No Matter What”
4-    The Knack - “My Sharona”
5-    Cheap Trick - “Surrender”
6-    Teenage Fanclub - “Star Sign”
7-    Todd Rundgren - “Couldn’t I Just Tell You”
8-    Flamin’ Groovies  - “Shake Some Action”
9-    Chris Bell - “I Am The Cosmos”
10-  Off Broadway - “Stay in Time”
       Menção Honrosa: Big Star - “Back Of A Car”

Por: Victor José